Em busca da perfeição

A compilação dos melhores cliques por três dos principais fotojornalistas de política no Brasil


Você já se viu extasiado ou surpreso com alguma fotografia ilustrando uma capa de revista ou a primeira página de um jornal? Um clique surpreendente que captou a emoção de um acontecimento e que você tem certeza que seria impossível de repeti-lo. Estamos falando da beleza e da arte de uma profissão muito admirada em nosso meio: o fotojornalismo.

“Repórter fotográfico” costuma ser o título da sua identidade funcional nos veículos, o bom e velho crachá. No bolso do colete ou na primeira vaga da carteira, esse cartão estampando a profissão vai além do cargo. Expressa um trabalho árduo que mistura sensibilidade, esforço físico, conhecimento teórico e, claro, habilidades com a câmera. Com cada vez menos botões, esses equipamentos demandam menos traquejo manual, e mais criatividade e marca de autoria nos cliques de quem trabalha. Enquanto meta, a perfeição pode até parecer utopia, mas para os bons fotojornalistas esse adjetivo caminha paripassu aos seus trabalhos.

A obra tem preço sugerido de R$ 37 e foi publicada em maio de 2008, mas nem por isso deixa de ser atual. (Foto: Reprodução/Publifolha)

“Caçadores de Luz: Histórias de Fotojornalismo” (Publifolha, 2008) é uma excelente pedida de leitura para quem almeja trabalhar nessa área ou nutre admiração por esses trabalhadores. O livro é assinado pelos irmãos Sérgio Marques, Alan Marques e Lula Marques, três fotógrafos renomados da cobertura política no Brasil. O trio se dedica à cobertura imagética da capital federal desde meados da década de 1980 e, igualmente, acompanharam muitos dos personagens que escreveram a história do país.

Sérgio passou por “O Globo”, Alan pelo “Jornal de Brasília” e Lula pela “Folha de S. Paulo”. Em todos os veículos, os três compartilham o desafio de produzir fotografia capaz de surpreender em um universo de declarações dos políticos do parlamento, fazer imagens diferentes. É impossível não se pegar imaginando quão maior é essa preocupação atualmente, na era das câmeras no bolso de praticamente todas as pessoas, a um clique nos smartphones.

A ex-ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello dirige olhar triste a uma carta de apoio. Relato de Sérgio mostra que o clique foi combinado. (Foto: Sérgio Marques)

Em uma das passagens, Sérgio Marques conta uma passagem inusitada. Após uma traumática passagem pelo antigo Ministério da Economia, do governo Collor (1990-1992), Zélia Cardoso de Mello estava deixando a pasta. Sérgio liga para Zélia e pede uma chance de registrar uma imagem diferente dos demais profissionais, e é convidado para um café da manhã. Entre goles de café, uma fotografia que ilustrou a capa de “O Globo” no dia seguinte. A economista está cabisbaixa sentada em um sofá enquanto lê uma carta de apoio. Com a ajuda da semiótica, velha parceira dos estudantes de jornalismo, podemos entender a profundidade do clique diferenciado.

O presidente Fernando Henrique Cardoso, aguarda Luiz Inácio Lula da Silva subindo a rampa do Palácio do Planalto no dia de sua posse, em 2003 (Foto: Lula Marques)

Para não se deixar enganar que esta seja uma profissão apenas das flores, também estão os registros históricos das fotografias mais complicadas. Lula Marques conta a vez em que foi parado pela polícia por excesso de velocidade. O embate com um policial terminou com um tapa do agente em seu rosto e a detenção na delegacia. O motivo? A correria para entregar a fotografia a tempo do fechamento da edição do dia seguinte. O fotógrafo conseguiu um feito praticamente inédito: usou o computador da delegada para enviar as imagens à redação, em São Paulo.

Sombra dos personagens ao fundo sugere tensão entre eles, dias antes da renúncia do ex-ministro José Dirceu, em 2005, apontado como um dos líderes do esquema do Mensalão (Foto: Lula Marques)

Estas e muitas outras histórias fazem com que a leitura de “Caçadores de Luz” seja única. A linguagem do texto tem leves oscilações, totalmente compreensíveis por ter sido escrito por três pessoas. De um modo geral, os relatos se assemelham a crônicas e, por isso, a leitura é muito agradável. 

Em sabatina no Senado que terminou confirmando sua indicação, o Procurador Geral da República, Augusto Aras, ergue um exemplar da Constituição Federal de 1988 (Foto: Lula Marques)

Para quem é ou não do meio jornalístico, leitura e investimento mais do que recomendados!

‘Os Presidentes’ para conhecer a formação da política brasileira nos últimos 130 anos

Livro do jornalista Rodrigo Vizeu é desdobramento de podcast que fez sucesso em jornal


Certo dia, assistindo a um documentário que, em breve, também será tema de uma resenha por aqui, permaneci reflexivo por um bom tempo ao ouvir o narrador do programa cravar um dado importante mas que jamais tinha parado para calcular: somente metade dos presidentes do Brasil foram eleitos pelo povo e apenas de um terço deles concluíram seus mandatos. A profundidade dos números impressiona. Sabemos que a democracia no Brasil foi construída a duras penas sobre episódios de autoritarismo e rupturas institucionais, mas pouco paramos para refletir em quanto tempo isso se refletiu na história.

Na escola, estudamos intensamente e sob diferentes matizes alguns períodos como o Brasil Colônia, o Brasil Império, a República da Espada, a República Oligárquica, o Estado Novo e outros períodos políticos que moldaram a sociedade e a cidadania nacional como as conhecemos. Mas o que levou à ruptura entre uma fase e outra? Qual foi a conjuntura de cada governo que permitiu o encerramento de um ciclo e o início de outro? Bem, ganhamos um importante aliado para ajudar a nos entender tudo isso.

No segundo semestre de 2018, a emergente cultura do podcasting no Brasil trouxe à luz um informativo semanal muito bacana produzido pelo jornal Folha de S. Paulo. O “Presidente da Semana” teve a editoria do jornalista Rodrigo Vizeu para contar, resumidamente, o mandato de cada um dos chefes do Poder Executivo, desde a Proclamação da República. O produto se tornou um sucesso, e tão logo o conturbado período eleitoral que corria em paralelo terminasse, deu espaço a um livro. “Os Presidentes: a história dos que mandaram e desmandaram no Brasil, de Deodoro a Bolsonaro” foi publicado em 2018, pela editora Harper Collins.

Como quase jornalista, acredito que em termos de narrativa, não há nada comparável a um livro. Mas entre essas obras, existem diferenciais importantes que tornam uma leitura mais interessante do que outras. De pronto, Vizeu revisita os 130 anos da República, período em que o Brasil já foi comandado por quase 40 presidentes diferentes.

O livro está disponível nas principais livrarias em versão física, por R$ 33,90, e digital pelo e-reader Amazon Kindle (Foto: Reprodução)

O primeiro desafio que imaginei para “Os Presidentes” foi o fato de que, salvas raras exceções, não existem grandes ciclos de governo na história, e que seria difícil escrever sobre um período tão longo. Todos sabemos que a descontinuidade de políticas públicas é uma marca lamentável dos governos no Brasil. Mas a obra segue por um caminho diferente. Vizeu buscou explorar as minúcias – até mesmo da vida particular – dos brasileiros que ocuparam a cadeira presidencial.

O jornalista utiliza as palavras para caracterizar um extenso trabalho de levantamento de informações sobre todos os governos de 1889 a 2019. Aqui se destaca uma virtude de Rodrigo Vizeu ao garantir um material bastante plural e bem articulado, que relaciona com maestria uma coloquialidade de texto e a diversidade de fontes. O livro tem um estilo que varia entre a formalidade exigida para a narração dos fatos no jornalismo e alguns pitacos bem humorados que tornam “Os Presidentes” um material único. Sou testemunha de que esta é uma leitura proveitosa para uma tarde de domingo.

O tomo de 336 páginas tem leitura rápida quando percebemos, graças a uma sacada do autor, como os 33 capítulos de histórias estão inter-relacionadas. Acontecimentos e personagens que se repetem, desfechos inesperados, os fatos crus e diretos tal como aconteceram. Naturalmente, podemos notar um viés interpretativo bastante marcante, e que contribui para que haja uma ponte leve e até mesmo bem-humorada entre os mandatos que Vizeu conta.

Lugares-comuns costumam ser peremptórios, não dando margem a transigências. Quem vê a política e a história sob o prisma das certezas absolutas prefere enxergar o mundo em termos de heróis ou vilões, bons e maus, amigos e inimigos. Não desfruta das nuances que tornam os personagens e os momentos históricos mais instigantes.

OS PRESIDENTES (2019), P. 14

“Os Presidentes” é um material muito interessante de consulta para quem quer estar por dentro do que aconteceu no passado e determinou os caminhos que levaram à formação política atual do nosso país. No Brasil, os acontecimentos se repetem de forma surpreendentemente constante nos mandatos presidenciais, diga-se de passagem. É o caminho do conhecer a história para aprimorar o presente e ter mais sabedoria para desenhar o futuro.

Ficou curioso? Não deixe de ler o livro de Vizeu, mais do que recomendado para todos os brasileiros!

“A Onda” completa dez anos dialogando com a realidade

por Egberto Nunes, estudante de Jornalismo e colaborador do blog POLITICANDO


Os termos “extrema-direita” e “fascismo” nunca foram tão discutidos e pesquisados como nos últimos anos. Não só no Brasil, como no mundo todo é fácil achar notícias ou artigos recentes ao pesquisar esses conceitos na internet. O caso de Charlotesville (EUA) em 2017, a ascensão de governos intolerantes pela Europa, as manifestações de extrema direita e o apoio obsessivo a líderes radicais pelo Brasil e pelo mundo são exemplos disso. Mais recentemente, a Alemanha foi palco de um triste ato: os protestos da extrema-direita e a “caça aos imigrantes”.

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Em 27 de agosto, manifestações xenófobicas de extrema-direita tomaram palco em Chemitz, na Alemanha. (Foto: Reprodução/Reuters)

O acontecimento se deu depois da morte de um alemão por esfaqueamento e a detenção de dois suspeitos: um iraquiano e um sírio. No final de agosto, grupos ligados à extrema-direita lançaram uma “caça aos estrangeiros” e fizeram saudações nazi (proibidas no país) no local do crime em Chemnitz, na Saxônia, no leste da Alemanha. Várias fake news surgiram para aumentar o fato e denunciar os imigrantes.

Também foi na Alemanha, o palco para a produção de um dos filmes mais didáticos e frequentemente usados em salas de aula sobre a ideologia fascista (e os perigos da mesma). Falo de A Onda (Die Welle, 2008 – distribuição: Constantin Film/Highlight Film), longa-metragem baseado em fatos reais sobre um experimento realizado por Ron Jones, um professor da Califórnia (EUA), no ano de 1967, em Palo Alto, para estudantes do ensino médio, no intuito de ensinar sobre os eventos que levaram ao Holocausto. O novo método de ensino, nada mais era do que demonstrar como uma população poderia ser tomada pelos ideais do fascismo. A produção tem o seu décimo aniversário esse ano em meio ao acalorado debate sobre o radicalismo político pelo mundo.

A ONDA REPRODUCAO
Símbolos de cumprimento e uniformes iguais para criar uma ideia de pertencimento ao grupo fazem parte do experimento do filme (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Por mais que ele tenha uma premissa até então pesada, o filme começa bem animado, com o professor Rainer Wenger no seu carro cantando bem alto a música “Rock ‘n’ Roll High School”, da banda de rock britânica Ramones. Até então, ele pretendia ensinar sobre anarquismo, mas tem a disciplina tomada por um professor bem mais fechado. No lugar, ele terá que ministrar o curso sobre autocracia, conceito que coloca todo poder centrado em um único líder. Ao testar o conhecimento dos alunos sobre o conceito e em uma dada discussão, ver que eles não enxergam a possibilidade de um “quarto Reich” surgir, ele muda a predisposição das cadeiras, separando grupinhos, institui regras para falar e se dirigir ao líder da classe, como escolhido pela turma, o professor.

Não darei muitos spoilers dos acontecimentos, mas vocês devem imaginar que o experimento sai do controle e em algum momento os alunos começam a levar a lição a sério demais, para fora das aulas. A relação entre os discursos reproduzidos, as relações que cada um tem com o experimento e a forma como enxergam aquilo para as suas vidas acaba sendo o mais interessante da produção.

CENA A ONDA
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Nos tempos nebulosos em que vivemos, é difícil não fazer uma comparação com a realidade ao assistir A Onda. Principalmente no quesito dos personagens. Temos aquela que reluta desde o começo e acha todo um processo um absurdo. Outro a princípio discorda, mas logo depois encarna cegamente o movimento. E, principalmente, aquele que leva o projeto para a sua vida. Dessa forma, conseguimos relacionar facilmente com estereótipos da vida real, que diferente do movimento por si só, estão bem vivos dos nossos lados.

Seria ainda mais interessante acompanhar o filme da perspectiva de um jovem alemão, sabendo do que aconteceu no passado e vendo seu país como está. São feitas menções a Adolf Hitler no filme, lembrando do passado, mas com um desgosto do tipo “isso não vai acontecer de novo” ou “de novo, isso?” Outro longa que explora muito bem essa questão é “Ele está de volta” (Er ist wieder da, 2015) que ficcionaliza a volta do ditador alemão em 2015.

Vale lembrar que em pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em outubro de 2017, foi constatado que o brasileiro tem forte adesão ao autoritarismo. Foram feitas perguntas que envolviam o conservadorismo, a agressividade autoritária e a submissão à autoridade. No geral, em uma escala de 0 a 10, atingimos o nível de 8,1 em apoio ao autoritarismo.

FOLHAPRESS
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Além do longa alemão, um homônimo americano foi realizado anteriormente, em 1981, importante destacar que para ser exibido na televisão. Um documentário chamado “Lesson Plan: The Story of the Third Wave”, contando a história do projeto também foi produzido. Não garanto muito sobre o último, mas as ficções mencionadas podem ser facilmente encontradas pela internet ou em lojas de DVDs. A Onda cabe sempre ser revisto, independente da efeméride, para que suas reflexões sejam contínuas e melhoradas.


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