Entre a cruz e a espada dos thrillers políticos

Inspirado em House of Cards, seriado traz Kiefer Sutherland como presidente dos Estados Unidos


(Foto: Divulgação/ABC)

Amantes dos thrillers políticos, uni-vos!

Somente os mais apaixonados pela complexidade de raciocínio e pelos ares épicos das ações do personagem Frank Underwood (Kevin Spacey) na série “House of Cards” sabem quão frustrante foi assistir à quinta e à sexta temporada do thriller político mais famoso do mundo. Como se diz por aí, a fonte secou antes do tempo e HOC se perdeu desastrosamente em busca de um desfecho para o presidente estadunidense mais trapaceiro das ficções. No apagar das luzes de 2016, a série de origem inglesa e regravada pela Netflix já não levantava o coro quase homogêneo de aprovação da época de seu lançamento. 

Foi exatamente em mais um momento de hiato cultural que a rede de televisão americana ABC conseguiu fazer uma daquelas jogadas avassaladoras do xadrez e trouxe ao mundo “Designated Survivor”. Sim, vou apelar para a comparação com o jogo de tabuleiro pois o desfecho dessa história mais uma vez não me parece ter sido dos melhores mas, isso é um suspense que eu guardo para o final dessa análise.

O ex-agente da CTU é o protagonista de Designated Survivor (Foto: Divulgação/FOX)

O escalado para viver a história de mais um presidente dos Estados Unidos é um dos mais bem sucedidos atores da cinegrafia. Kiefer Sutherland, o icônico agente Jack Bauer do seriado 24 Horas (FOX, 2001-2010) é Thomas Kirkman e, inicialmente, trabalha como Secretário de Urbanismo e Moradia, um cargo parecido com o de Ministro das Cidades no Brasil no governo do presidente Robert Richmond (Richard Bekins). Richmond acaba de tomar posse para um segundo mandato. Desde as primeiras cenas, revela ser um servidor público bastante fiel ao seu chefe mas, logo se vê apunhalado pela própria lealdade. 

Sutherland interpreta um presidente inexperiente, mas que vira o jogo depois de aprender a negociar e conhecer as peças do quebra-cabeça da política (Foto: Reprodução/Netflix)

Em uma decisão que não fica muito clara na série, o presidente destitui o secretário na troca de secretários do novo mandato – equivalente a uma reforma ministerial na presidência brasileira – e o convida para ser embaixador do país, em um tipo de prêmio de consolação por “serviços prestados” mas que ao mesmo tempo o rebaixa hierarquicamente. Kirkman hesita e flashbacks mostram seu compromisso inalienável com a família, que sempre está em primeiro plano ao tomar suas atitudes. O secretário pede um tempo para decidir sobre o convite, que acontece na manhã de uma data muito importante para a política federal estadunidense. Um detalhe importante para entender a história: Kirkman tecnicamente foi exonerado e não cumpre nenhuma função executiva, mas permanece sendo um funcionário do gabinete presidencial.

O State Of The Union – Estado da União, em português – é um evento importante do Governo Federal dos Estados Unidos. Uma vez por ano, geralmente em janeiro ou fevereiro, seguindo o Artigo 2 da Constituição daquele país, o presidente deve ir ao Congresso – o “Capitólio” em Washington, D.C. – fazer uma espécie de prestação de contas e apresentar sua proposta política, inclusive as prioridades de governança. Seguindo uma tradição originada na Guerra Fria, durante a cerimônia um membro do gabinete elegível para ocupar a função de presidente da República é nomeado para o cargo de “sobrevivente designado”. Ele deve permanecer em local remoto e sigiloso durante todo o evento no Capitólio, pronto para assumir a chefia do Poder Executivo no caso de uma catástrofe, para “garantir a continuidade do governo”.

E eis que o temido raio cai sobre o lugar. Em um ataque à bomba de proporções nucleares, o lado oeste do Capitólio voa pelos ares, matando quase todo o Congresso e o Governo Federal do país. “Quase”, pois Kirkman está a salvo em outro prédio e dois deputados sobreviverão, o que dará um tom de conspiração que será o fio condutor da história. O ex-secretário imediatamente é convocado para fazer o juramento presidencial. A história tem bom andamento logo no primeiro episódio e é ajudada justamente pela vida real. O tamanho compacto da Constituição dos Estados Unidos faz com que muitos procedimentos pareçam demasiado pragmáticos se comparados a outras cartas magnas. E assim o é com a sucessão presidencial.

Emily Rhodes (Itala Ricci), Tom Kirkman e Lyor Boone (Paulo Costanzo) (Foto: Reprodução/Netflix)

Quando digo que a trama é ágil, não há nenhuma dose de exagero nessa afirmação. Em uma trama muito semelhante à vivida no Brasil, veremos a legitimidade do mandato de Kirkman ser questionada quase o tempo todo, bem como seu frágil traquejo político, que somente será adquirido com a própria vivência do “fazer político” em sua acepção mais maniqueísta. Guarde a palavra “maniqueísmo” mas não, não se assuste, a série passa longe de ser banal. É possível admirar um enredo digno de House of Cards – o britânico, o estadunidense e o brasileiro – com passagens complexas e instigantes marcadas por personagens que representam lobbies, políticos ambiciosos e os que apelam para um nacionalismo torto e deturpado. Mais contemporânea do que qualquer outro seriado de cunho político, Designated Survivor também explora corrupção em financiamento de campanha eleitoral, media training e, claro, fake news.

A despeito de toda sua inexperiência, o sobrevivente designado resistirá à sua crescente torcida para que o patinho feio alcance a glória por pelo menos três temporadas. Provando a resiliência somente proporcionada por sua evidente qualidade do roteiro, Designated Survivor foi cancelada pela ABC em 2018 mas ganhou sobrevida com produção própria do Netflix em 2019. Não durou muito. Enquanto as 2 primeiras temporadas tiveram 21 e 22 episódios respectivamente, a derradeira teve apenas 10 capítulos, para a tristeza de quem aprendeu a torcer para que Kirkman fizesse um bom governo. A expertise política [e crítica] “à brasileira” certamente o faria pensar que este autor criou um “político de estimação”, como se diz por aí. Bem, não farei juízo sobre isso, deixo para que você mesmo tire suas conclusões e nos conte se, depois de terminar DS, você votaria ou não em Tom Kirkman?

“A Onda” completa dez anos dialogando com a realidade

por Egberto Nunes, estudante de Jornalismo e colaborador do blog POLITICANDO


Os termos “extrema-direita” e “fascismo” nunca foram tão discutidos e pesquisados como nos últimos anos. Não só no Brasil, como no mundo todo é fácil achar notícias ou artigos recentes ao pesquisar esses conceitos na internet. O caso de Charlotesville (EUA) em 2017, a ascensão de governos intolerantes pela Europa, as manifestações de extrema direita e o apoio obsessivo a líderes radicais pelo Brasil e pelo mundo são exemplos disso. Mais recentemente, a Alemanha foi palco de um triste ato: os protestos da extrema-direita e a “caça aos imigrantes”.

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Em 27 de agosto, manifestações xenófobicas de extrema-direita tomaram palco em Chemitz, na Alemanha. (Foto: Reprodução/Reuters)

O acontecimento se deu depois da morte de um alemão por esfaqueamento e a detenção de dois suspeitos: um iraquiano e um sírio. No final de agosto, grupos ligados à extrema-direita lançaram uma “caça aos estrangeiros” e fizeram saudações nazi (proibidas no país) no local do crime em Chemnitz, na Saxônia, no leste da Alemanha. Várias fake news surgiram para aumentar o fato e denunciar os imigrantes.

Também foi na Alemanha, o palco para a produção de um dos filmes mais didáticos e frequentemente usados em salas de aula sobre a ideologia fascista (e os perigos da mesma). Falo de A Onda (Die Welle, 2008 – distribuição: Constantin Film/Highlight Film), longa-metragem baseado em fatos reais sobre um experimento realizado por Ron Jones, um professor da Califórnia (EUA), no ano de 1967, em Palo Alto, para estudantes do ensino médio, no intuito de ensinar sobre os eventos que levaram ao Holocausto. O novo método de ensino, nada mais era do que demonstrar como uma população poderia ser tomada pelos ideais do fascismo. A produção tem o seu décimo aniversário esse ano em meio ao acalorado debate sobre o radicalismo político pelo mundo.

A ONDA REPRODUCAO
Símbolos de cumprimento e uniformes iguais para criar uma ideia de pertencimento ao grupo fazem parte do experimento do filme (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Por mais que ele tenha uma premissa até então pesada, o filme começa bem animado, com o professor Rainer Wenger no seu carro cantando bem alto a música “Rock ‘n’ Roll High School”, da banda de rock britânica Ramones. Até então, ele pretendia ensinar sobre anarquismo, mas tem a disciplina tomada por um professor bem mais fechado. No lugar, ele terá que ministrar o curso sobre autocracia, conceito que coloca todo poder centrado em um único líder. Ao testar o conhecimento dos alunos sobre o conceito e em uma dada discussão, ver que eles não enxergam a possibilidade de um “quarto Reich” surgir, ele muda a predisposição das cadeiras, separando grupinhos, institui regras para falar e se dirigir ao líder da classe, como escolhido pela turma, o professor.

Não darei muitos spoilers dos acontecimentos, mas vocês devem imaginar que o experimento sai do controle e em algum momento os alunos começam a levar a lição a sério demais, para fora das aulas. A relação entre os discursos reproduzidos, as relações que cada um tem com o experimento e a forma como enxergam aquilo para as suas vidas acaba sendo o mais interessante da produção.

CENA A ONDA
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Nos tempos nebulosos em que vivemos, é difícil não fazer uma comparação com a realidade ao assistir A Onda. Principalmente no quesito dos personagens. Temos aquela que reluta desde o começo e acha todo um processo um absurdo. Outro a princípio discorda, mas logo depois encarna cegamente o movimento. E, principalmente, aquele que leva o projeto para a sua vida. Dessa forma, conseguimos relacionar facilmente com estereótipos da vida real, que diferente do movimento por si só, estão bem vivos dos nossos lados.

Seria ainda mais interessante acompanhar o filme da perspectiva de um jovem alemão, sabendo do que aconteceu no passado e vendo seu país como está. São feitas menções a Adolf Hitler no filme, lembrando do passado, mas com um desgosto do tipo “isso não vai acontecer de novo” ou “de novo, isso?” Outro longa que explora muito bem essa questão é “Ele está de volta” (Er ist wieder da, 2015) que ficcionaliza a volta do ditador alemão em 2015.

Vale lembrar que em pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em outubro de 2017, foi constatado que o brasileiro tem forte adesão ao autoritarismo. Foram feitas perguntas que envolviam o conservadorismo, a agressividade autoritária e a submissão à autoridade. No geral, em uma escala de 0 a 10, atingimos o nível de 8,1 em apoio ao autoritarismo.

FOLHAPRESS
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Além do longa alemão, um homônimo americano foi realizado anteriormente, em 1981, importante destacar que para ser exibido na televisão. Um documentário chamado “Lesson Plan: The Story of the Third Wave”, contando a história do projeto também foi produzido. Não garanto muito sobre o último, mas as ficções mencionadas podem ser facilmente encontradas pela internet ou em lojas de DVDs. A Onda cabe sempre ser revisto, independente da efeméride, para que suas reflexões sejam contínuas e melhoradas.


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