‘God Save The Future’, por Cesar Cabral

Resenha de “Depois do Futuro” (2009), de Franco Berardi, que discute a mudança de perspectivas sobre o porvir


Dentre as marcas do século XX, a ideia de que o Futuro é necessariamente o Progresso: isto é, o Devir é utópico, e todos os males serão sanados.

Para quem vê a História do século passado, percebe-se diversas conquistas em questões de direitos para quem antes foi esquecido pelo mundo político. O conceito de cidadão não era mais estendido apenas a um pequeno grupo de homens ricos do mundo capitalista; às mulheres foi dado o direito ao voto, assim como outros grupos que seriam excluídos do conceito de “cidadão” (analfabetos, pessoas sem posse). O avanço tecnológico e econômico permitiu ao operário ser livre (O sonho americano). Os direitos humanos garantiram às minorias tratamento digno e quem os protegesse diante de injustiças. O sexo tornou-se livre, a juventude pôde contestar seus pais (maio de 1968). Entre outras coisas.

A esperança utópica, porém, se colapsa, dando origem a sentimentos de um futuro incerto ao mesmo tempo que o risco distópico está bem visível no horizonte de eventos. Dois sentimentos opostos criados pelo mesmo sistema. 

(Arte: Cesar Cabral)

Um futuro “ideal”

Em “Depois do Futuro” (Ubu Editora, 2009), Franco Berardi se propõe a explicar a como a visão do Futuro mudou ao longo do século XX, a visão utópica perturbada pela distopia.  

A obra está disponível em versões física e digital (Foto: Reprodução)

Atribui toda essa esperança aos acontecimentos e desenvolvimentos do início do século XX. A visão do avanço tecnológico, mais vista nos centros do capitalismo ocidental, tem sua síntese no Manifesto Futurista (1909) e o próprio caráter do movimento Futurista

Filippo Marinetti, em seu Manifesto, exalta a qualidade da violência, da força, da figura masculina: 

1. Queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2.  A coragem, a audácia e a revolta serão os elementos essenciais da nossa poesia.
[…]
3. Declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu de uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida cuja carroceria é adornada por grandes tubulações como serpentes de alento explosivo… um automóvel que ruge, que parece correr acima da metralha, é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.
[…]
9. Queremos glorificar a guerra – a única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre, e o desprezo pela mulher.
10. Queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.
[…]

Na opinião do autor, o futuro, é masculino, indomável, e a feminilidade é um empecilho “que reduz a potência produtiva, e, em última análise, agressiva. O princípio competitivo domina o imaginário político e econômico da modernidade que o futurismo quer importar para a Itália” (BERARDI, p.27)

É da corrida e competição produtiva e política que terá como resultado um conflito jamais visto até então, que ainda na ânsia da destruição esperançosa, prometia ser uma “guerra para acabar com todas as guerras”. A guerra era total, civis eram visados assim como os soldados profissionais. 

Berardi destaca duas correntes do Futurismo: a italiana e a russa. A primeira, representada pelo Manifesto de Marinetti, numa Itália à margem do desenvolvimento europeu. O “futurismo italiano tem uma vocação essencialmente nacionalista agressiva e machista” (BERARDI, p.39) É, ainda segundo o autor, que esse nacionalismo agressivo, e o culto ao militar serão refletidos no surgimento do Fascismo.

‘O Ciclista’, de Natalia Goncharova, é uma obra da arte Futurista russa (Foto: Reprodução)

Já a vertente russa surgiu mais tarde, já na Rússia revolucionária. Essa vertente “tem uma vocação internacionalista, afirma o valor solidário da luta de classes e uma ideia libertária e igualitária da relação entre os sexos.” (BERARDI, p.39).

Ambas cultivavam a ideia da violência e de aspectos militaristas, mas muito mais agressiva e com intenções de se ter no cotidiano no ramo italiano do que no russo. A vida civil italiana seria impregnada de aspectos militaristas.  Já a violência do Futurismo russo, conforme o autor, vem do historicismo dialético marxista-leninista, onde se é necessária para que o novo se manifestar, acabar com o velho.

Vanguardas, Bauhaus e publicidade

O autor diferencia o futurismo do dadaísmo no seguinte aspecto: “O futurismo é um movimento fortemente pragmático, suas intenções são claras, afirmativas e arrogantes”, enquanto ao dadaísmo diz que “é difícil falar de programa uma vez que sua figura retórica predominante é a ironia. Na ironia, há sempre uma a consciência da dissociação entre linguagem e realidade” (BERARDI, p.74).

Sendo o dadaísmo tendo uma única coisa pragmática atribuída, segundo Berardi (p. 75), os dizeres de Tristan Tzara:

  • “Abolir a arte;
  • Abolir a vida cotidiana;
  • Abolir a separação entre a arte e a vida cotidiana”.

Para o autor, essa abolição pode ser vista nos projetos da Bauhaus:

“O projeto cultural da Bauhaus desenvolve, de forma positiva, a intenção dadaísta de abolir toda a separação entre a arte e a vida cotidiana. Enquanto o dadaísmo e o futurismo tinham desempenhado seu trabalho com estilo provocativo e rebelde, a Bauhaus assume o ponto de vista da funcionalidade e transfere a tensão revolucionária original para um estilo profissional, construtivo.” (BERARDI, p.62)

Na publicidade, a agressividade da palavra inaugurada pelo Futurismo, com a comunicação funcional feita pela Bauhaus através de uma comunicação “fruível e funcional”. 

E no período de forte inventividade de meios e mídias de comunicação, ao mesmo tempo de ume efervescência cultural e diversas vanguardas têm grande influência, nas palavras do autor: “Há uma proximidade histórica entre a utopia das vanguardas e o processo de formação das mídias modernas, de sua cultura, de sua concepção tecnológica, de sua finalidade.” (p. 68).

A invenção da Televisão muda toda a perspectiva do homem com a mídia, “tornou-se depois o fenômeno talvez mis invasivos na metrópole pós-industrial […] O sistema televisivo penetra em todos os poros da sensibilidade e a publicidade remodela a percepção de si, à espera do futuro, a esperança e o terror” (BERARDI, p. 70)

Berardi nos mostra, a partir de escritos de Velimir Khlébnikov de 1921 em “O rádio do futuro”, de que a mídia de massas, nesse caso o rádio, e futuramente a Televisão, que seria possível usá-lo para fins totalitários: o distribuidor da informação é alguém que trabalha para o Estado, a partir de um único centro.

Sê jovem e cala-te”: o Maio de 68

O 1968 é marcado pelos protestos ocorridos em muitos países. Principal símbolo desse ano é o Maio de 68 na França, que a partir de manifestações de estudantes da Université de Nanterres escala para um movimento de contestação política e comportamental envolvendo a classe operária e intelectual de esquerda.

Manifestações de maio de 1968 levaram universitários às ruas para pedir reformas no sistema educacional da França (Foto: Arquivo/Jacques Marie/AFP)

Contestações surgiram igualmente em outros países: A Primavera de Praga (Tchecoslováquia), a Marcha dos Cem Mil (Brasil) são alguns exemplos.

O autor procura as explicações dos contornos desse fenômeno, em específico o maio francês, em uma ideia derivada do movimento surrealista, que apesar de  não haver “uma vontade declarativa e revolucionária como nas outras experiências de vanguarda” (p.82)

Ele sintetiza o movimento nas seguintes frases: “Sejamos realistas, exijamos o impossível” e “A imaginação no poder”.

“Os surrealistas escreveram poesia conforme as técnicas da escrita automática e da escrita automática coletiva porque pensavam que a poesia era um mecanismo de automanifestação do inconsciente por meio da linguagem, o lugar em que a linguagem fala por si. Stéphane Mallarmé e o simbolismo já haviam pensado isso. Mas o surrealismo liga essa expressão poética do inconsciente a seu projeto político, à sua imaginação do mundo (BERARDI, p.83)

E completa: “Os efeitos políticos do surrealismo estão justamente em ter afirmado a potência transformadora do inconsciente, e em ter apontado no imaginário a força dinâmica, o campo no qual as transformações ocorrem.” (p. 83) 

O impossível é agora possível, a visão do que é possível foi expandida. Daí vem o “os movimentos estudantis, o antiautoritaríssimo, a recusa do trabalho operário, o igualitarismo” (p.83).  Portanto o Maio de 1968 é fruto também de um pensar surrealista e dadaísta.

É um momento final da esperança de um futuro progressista, de males reduzidos. Os “Maios” de 1968 foram uma manifestação de insatisfação comportamental, contra “tudo que estava ali”. Luta por liberdades individuais, contra um conservadorismo que os pais e avós desses jovens tinham, mas que não trespassou à mente dos filhos. Não naquele momento.

Em 1968, a “Primavera de Praga” durou sete meses e impôs reformas ao Estado totalitário governado pelo Partido Comunista da Tchecoslováquia (Foto: Arquivo/L. Halsky)

O sonho acabou

O ano de 1977 é o momento em que o “Futuro-progresso” se finda. 

Em suas palavras, as vanguardas são convertidas, desfiguradas em uma utilização perversa:

“A paixão desestruturante do futurismo italiano coloca-se a serviço da publicidade, dispositivo de controle da imaginação coletiva” e a “alegria criativa do futurismo russo coloca-se a serviço do terror bolchevique. O surrealismo alimenta a engenharia da imaginação (corporated imagineering). As revoltas igualitárias se transformam em ditaduras de Estado.” (BERARDI, p.84)

Berardi lista alguns acontecimentos que marcam as mudanças desse novo período. A começar pela Apple, que segundo ele, foi responsável “pelas interfaces que tornaram possível a difusão social da infotecnologia” (p.85).  Além disso, a cidade desapareceria “engolida pelo sprawl [alastramento] metropolitano, pela disposição de dormitórios e de ciberfábricas interconectadas” (p.85). 

É um tempo marcado por: 1) Desterritorialização social; 2) uma mudança econômica que tiraria o elemento humano das cidades; 2) subjugação de todo fragmento do tempo mental.

O ano de 77 é marcado como o de suicídios de jovens no Japão, no mesmo ano, com 784 mortes autoinfligidas. Além de ocorrem suicídio de crianças. Berardi fala a respeito de algumas produções cinematográficas que previram os comportamentos da nova sociedade, uma sociedade pós-humana tomava forma.

Ao falar sobre O ovo da serpente (Bergman), que “descreve a década de preparação do nazismo como um envenenamento da atmosfera […]” também mostra que tal preparação do nazismo, mesmo que derrotado militarmente, não desapareceu das mentes das pessoas. Segundo Berardi (p.86) a política racial e extermínio dos indesejáveis, trabalho escravo que os nazistas fizeram, hoje também se apresenta “necessário devido ao automatismo econômico da competição”.

O fim da Infância da ficção científica

Dentre as obras de Ficção científica produzidas durante as décadas de 40-50, o avanço tecnológico, um ideal de progresso, uma visão positivista das coisas são presentes (BERARDI, p.95). Já as obras do gênero, lançadas no final do século seguem uma tendência mais distópica, um mundo pós-apocalíptico tecnológico: sendo representado tal segmento pelo subgênero sci-fi cyberpunk.  

Cena de “Star Citizen” (Cloud Imperium Games), jogo de simulação espacial ambientado no “século 30 da Via Láctea” (Foto: Reprodução)

É na estética cyberpunk é escura, poluída, das quais, apesar do grande avanço tecnológico, a pobreza é presente, as luzes são de fontes artificiais que poluem o ambiente, e o sol sequer é frequente na mise-en-scène. Além disso, os prédios titanescos, tecnologias à mão e comunicação instantânea são elementos naturais de um novo ambiente.

Um dos clássicos da literatura cyberpunk é “Neuromancer” (William Gibson), que conta a história de Case, um hacker que ao tentar roubar o dinheiro de seus contratantes falha. Seu fracasso o impossibilita de se conectar com o resto do mundo, se conectar a matrix, ao resto do mundo; algo que ocupou o papel central na vida dos humanos.

Assim, o futuro é tecnológico, mas nada progressista. Nada que vá melhorar a vida de quem não está em um circuito de poder.

Neoliberdade”, neoliberalismo e a popularização da Internet

Ainda que os momentos finais do século XX fossem marcados por sinais de um a esperança da utopia não morrera. E a última manifestação dessa utopia manifesta-se no virtual (BERNARDI, p.103).

Área de trabalho do Microsoft Windows 95, que popularizou (Foto: Reprodução)

É na década de 1990 que a internet se populariza para uso civil. A União Soviética capitulou perante seus problemas internos, e o Comunismo, perante o Capitalismo, levando embora também o terror de um Holocausto nuclear. Foi a década em que o fim da História chegou, segundo Fukuyama. Agora a internet poderia ser usada para uso do público em geral, um mundo de liberdade, sem fronteiras de contato e de tempo.  

A imposição do neoliberalismo perante o mundo deu novas perspectivas de vida para o capitalismo.  A lógica de produção do capital é outra: antes “o corpo físico do trabalhador tinha direito ao descanso, à assistência, à cura, à aposentadoria” (BERARDI, p.139). Mas quando o trabalho vira digital “a pessoa é apenas o resíduo irrelevante, intercambiável, precário do processo de produção de valor. Consequentemente, não pode reivindicar nenhum direito, nem se identificar como singularidade.” (p.139)

Berardi usa o termo “Fractalidade” para definir como é o novo trabalho em tempos de virtualidade: “o trabalhador não existe mais como pessoa. É apenas um produtor intercambiável de microfragmentos de semiose passível de recombinação que entra no fluxo contínuo da rede. […] O trabalhador […] é pago pela sua presença pontual, ocasional, temporária” (p.139), o trabalhado virou um “bico”.

Podemos exemplificar esse pensamento com os apps Uber™, UberEats™, iFood™, e outros do tipo. O trabalhador será remunerado pela disponibilidade que empregou para fornecer sua mão de obra. E ainda só será remunerado caso lhe seja disponibilizado algum serviço – corrida, entrega – dentro do seu tempo de atividade.  Tais trabalhadores não possuem direitos celetistas como seguro-desemprego, remuneração em dias de folga ou por afastamento por questões de saúde.

Berardi também fala que antes o risco de investimento era das empresas, que estariam destinadas a terem grandes sucessos ou colossais fracassos. Hoje, o “somos todos capitalistas” (p.151) fez com que todos tomem conta de seus riscos, mesmo que o capitalista/empreendedor esteja em uma hierarquia, dentro de uma empresa, cumprindo obrigações que lhe são impostas.

Para o autor, essa ideologia empresarial é responsável por uma onda de depressão que acomete boa parte da população. “[A depressão] se apresenta como uma doença da responsabilidade na qual predomina o sentimento de insuficiência. O deprimido não está à altura, está cansado da obrigação de ser ele mesmo” (A. EHRENBERG, apud BERARDI, p.150).

É da falta de algum alicerce, algo que prenda a pessoa à não se matar. Mas para quem perdeu tudo isso, que atrocidades acontecem: massacres seguidos de suicídio por seus perpetradores (Columbine, Realengo, Suzano), ataques terroristas suicidas (13-Novembre), suicídios homicidas (Andreas Lubitz, 11 de Setembro).

“All We Ever Wanted Was Everything”

– Bauhaus


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Em busca da perfeição

A compilação dos melhores cliques por três dos principais fotojornalistas de política no Brasil


Você já se viu extasiado ou surpreso com alguma fotografia ilustrando uma capa de revista ou a primeira página de um jornal? Um clique surpreendente que captou a emoção de um acontecimento e que você tem certeza que seria impossível de repeti-lo. Estamos falando da beleza e da arte de uma profissão muito admirada em nosso meio: o fotojornalismo.

“Repórter fotográfico” costuma ser o título da sua identidade funcional nos veículos, o bom e velho crachá. No bolso do colete ou na primeira vaga da carteira, esse cartão estampando a profissão vai além do cargo. Expressa um trabalho árduo que mistura sensibilidade, esforço físico, conhecimento teórico e, claro, habilidades com a câmera. Com cada vez menos botões, esses equipamentos demandam menos traquejo manual, e mais criatividade e marca de autoria nos cliques de quem trabalha. Enquanto meta, a perfeição pode até parecer utopia, mas para os bons fotojornalistas esse adjetivo caminha paripassu aos seus trabalhos.

A obra tem preço sugerido de R$ 37 e foi publicada em maio de 2008, mas nem por isso deixa de ser atual. (Foto: Reprodução/Publifolha)

“Caçadores de Luz: Histórias de Fotojornalismo” (Publifolha, 2008) é uma excelente pedida de leitura para quem almeja trabalhar nessa área ou nutre admiração por esses trabalhadores. O livro é assinado pelos irmãos Sérgio Marques, Alan Marques e Lula Marques, três fotógrafos renomados da cobertura política no Brasil. O trio se dedica à cobertura imagética da capital federal desde meados da década de 1980 e, igualmente, acompanharam muitos dos personagens que escreveram a história do país.

Sérgio passou por “O Globo”, Alan pelo “Jornal de Brasília” e Lula pela “Folha de S. Paulo”. Em todos os veículos, os três compartilham o desafio de produzir fotografia capaz de surpreender em um universo de declarações dos políticos do parlamento, fazer imagens diferentes. É impossível não se pegar imaginando quão maior é essa preocupação atualmente, na era das câmeras no bolso de praticamente todas as pessoas, a um clique nos smartphones.

A ex-ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello dirige olhar triste a uma carta de apoio. Relato de Sérgio mostra que o clique foi combinado. (Foto: Sérgio Marques)

Em uma das passagens, Sérgio Marques conta uma passagem inusitada. Após uma traumática passagem pelo antigo Ministério da Economia, do governo Collor (1990-1992), Zélia Cardoso de Mello estava deixando a pasta. Sérgio liga para Zélia e pede uma chance de registrar uma imagem diferente dos demais profissionais, e é convidado para um café da manhã. Entre goles de café, uma fotografia que ilustrou a capa de “O Globo” no dia seguinte. A economista está cabisbaixa sentada em um sofá enquanto lê uma carta de apoio. Com a ajuda da semiótica, velha parceira dos estudantes de jornalismo, podemos entender a profundidade do clique diferenciado.

O presidente Fernando Henrique Cardoso, aguarda Luiz Inácio Lula da Silva subindo a rampa do Palácio do Planalto no dia de sua posse, em 2003 (Foto: Lula Marques)

Para não se deixar enganar que esta seja uma profissão apenas das flores, também estão os registros históricos das fotografias mais complicadas. Lula Marques conta a vez em que foi parado pela polícia por excesso de velocidade. O embate com um policial terminou com um tapa do agente em seu rosto e a detenção na delegacia. O motivo? A correria para entregar a fotografia a tempo do fechamento da edição do dia seguinte. O fotógrafo conseguiu um feito praticamente inédito: usou o computador da delegada para enviar as imagens à redação, em São Paulo.

Sombra dos personagens ao fundo sugere tensão entre eles, dias antes da renúncia do ex-ministro José Dirceu, em 2005, apontado como um dos líderes do esquema do Mensalão (Foto: Lula Marques)

Estas e muitas outras histórias fazem com que a leitura de “Caçadores de Luz” seja única. A linguagem do texto tem leves oscilações, totalmente compreensíveis por ter sido escrito por três pessoas. De um modo geral, os relatos se assemelham a crônicas e, por isso, a leitura é muito agradável. 

Em sabatina no Senado que terminou confirmando sua indicação, o Procurador Geral da República, Augusto Aras, ergue um exemplar da Constituição Federal de 1988 (Foto: Lula Marques)

Para quem é ou não do meio jornalístico, leitura e investimento mais do que recomendados!

‘Os Presidentes’ para conhecer a formação da política brasileira nos últimos 130 anos

Livro do jornalista Rodrigo Vizeu é desdobramento de podcast que fez sucesso em jornal


Certo dia, assistindo a um documentário que, em breve, também será tema de uma resenha por aqui, permaneci reflexivo por um bom tempo ao ouvir o narrador do programa cravar um dado importante mas que jamais tinha parado para calcular: somente metade dos presidentes do Brasil foram eleitos pelo povo e apenas de um terço deles concluíram seus mandatos. A profundidade dos números impressiona. Sabemos que a democracia no Brasil foi construída a duras penas sobre episódios de autoritarismo e rupturas institucionais, mas pouco paramos para refletir em quanto tempo isso se refletiu na história.

Na escola, estudamos intensamente e sob diferentes matizes alguns períodos como o Brasil Colônia, o Brasil Império, a República da Espada, a República Oligárquica, o Estado Novo e outros períodos políticos que moldaram a sociedade e a cidadania nacional como as conhecemos. Mas o que levou à ruptura entre uma fase e outra? Qual foi a conjuntura de cada governo que permitiu o encerramento de um ciclo e o início de outro? Bem, ganhamos um importante aliado para ajudar a nos entender tudo isso.

No segundo semestre de 2018, a emergente cultura do podcasting no Brasil trouxe à luz um informativo semanal muito bacana produzido pelo jornal Folha de S. Paulo. O “Presidente da Semana” teve a editoria do jornalista Rodrigo Vizeu para contar, resumidamente, o mandato de cada um dos chefes do Poder Executivo, desde a Proclamação da República. O produto se tornou um sucesso, e tão logo o conturbado período eleitoral que corria em paralelo terminasse, deu espaço a um livro. “Os Presidentes: a história dos que mandaram e desmandaram no Brasil, de Deodoro a Bolsonaro” foi publicado em 2018, pela editora Harper Collins.

Como quase jornalista, acredito que em termos de narrativa, não há nada comparável a um livro. Mas entre essas obras, existem diferenciais importantes que tornam uma leitura mais interessante do que outras. De pronto, Vizeu revisita os 130 anos da República, período em que o Brasil já foi comandado por quase 40 presidentes diferentes.

O livro está disponível nas principais livrarias em versão física, por R$ 33,90, e digital pelo e-reader Amazon Kindle (Foto: Reprodução)

O primeiro desafio que imaginei para “Os Presidentes” foi o fato de que, salvas raras exceções, não existem grandes ciclos de governo na história, e que seria difícil escrever sobre um período tão longo. Todos sabemos que a descontinuidade de políticas públicas é uma marca lamentável dos governos no Brasil. Mas a obra segue por um caminho diferente. Vizeu buscou explorar as minúcias – até mesmo da vida particular – dos brasileiros que ocuparam a cadeira presidencial.

O jornalista utiliza as palavras para caracterizar um extenso trabalho de levantamento de informações sobre todos os governos de 1889 a 2019. Aqui se destaca uma virtude de Rodrigo Vizeu ao garantir um material bastante plural e bem articulado, que relaciona com maestria uma coloquialidade de texto e a diversidade de fontes. O livro tem um estilo que varia entre a formalidade exigida para a narração dos fatos no jornalismo e alguns pitacos bem humorados que tornam “Os Presidentes” um material único. Sou testemunha de que esta é uma leitura proveitosa para uma tarde de domingo.

O tomo de 336 páginas tem leitura rápida quando percebemos, graças a uma sacada do autor, como os 33 capítulos de histórias estão inter-relacionadas. Acontecimentos e personagens que se repetem, desfechos inesperados, os fatos crus e diretos tal como aconteceram. Naturalmente, podemos notar um viés interpretativo bastante marcante, e que contribui para que haja uma ponte leve e até mesmo bem-humorada entre os mandatos que Vizeu conta.

Lugares-comuns costumam ser peremptórios, não dando margem a transigências. Quem vê a política e a história sob o prisma das certezas absolutas prefere enxergar o mundo em termos de heróis ou vilões, bons e maus, amigos e inimigos. Não desfruta das nuances que tornam os personagens e os momentos históricos mais instigantes.

OS PRESIDENTES (2019), P. 14

“Os Presidentes” é um material muito interessante de consulta para quem quer estar por dentro do que aconteceu no passado e determinou os caminhos que levaram à formação política atual do nosso país. No Brasil, os acontecimentos se repetem de forma surpreendentemente constante nos mandatos presidenciais, diga-se de passagem. É o caminho do conhecer a história para aprimorar o presente e ter mais sabedoria para desenhar o futuro.

Ficou curioso? Não deixe de ler o livro de Vizeu, mais do que recomendado para todos os brasileiros!

Entre a cruz e a espada dos thrillers políticos

Inspirado em House of Cards, seriado traz Kiefer Sutherland como presidente dos Estados Unidos


(Foto: Divulgação/ABC)

Amantes dos thrillers políticos, uni-vos!

Somente os mais apaixonados pela complexidade de raciocínio e pelos ares épicos das ações do personagem Frank Underwood (Kevin Spacey) na série “House of Cards” sabem quão frustrante foi assistir à quinta e à sexta temporada do thriller político mais famoso do mundo. Como se diz por aí, a fonte secou antes do tempo e HOC se perdeu desastrosamente em busca de um desfecho para o presidente estadunidense mais trapaceiro das ficções. No apagar das luzes de 2016, a série de origem inglesa e regravada pela Netflix já não levantava o coro quase homogêneo de aprovação da época de seu lançamento. 

Foi exatamente em mais um momento de hiato cultural que a rede de televisão americana ABC conseguiu fazer uma daquelas jogadas avassaladoras do xadrez e trouxe ao mundo “Designated Survivor”. Sim, vou apelar para a comparação com o jogo de tabuleiro pois o desfecho dessa história mais uma vez não me parece ter sido dos melhores mas, isso é um suspense que eu guardo para o final dessa análise.

O ex-agente da CTU é o protagonista de Designated Survivor (Foto: Divulgação/FOX)

O escalado para viver a história de mais um presidente dos Estados Unidos é um dos mais bem sucedidos atores da cinegrafia. Kiefer Sutherland, o icônico agente Jack Bauer do seriado 24 Horas (FOX, 2001-2010) é Thomas Kirkman e, inicialmente, trabalha como Secretário de Urbanismo e Moradia, um cargo parecido com o de Ministro das Cidades no Brasil no governo do presidente Robert Richmond (Richard Bekins). Richmond acaba de tomar posse para um segundo mandato. Desde as primeiras cenas, revela ser um servidor público bastante fiel ao seu chefe mas, logo se vê apunhalado pela própria lealdade. 

Sutherland interpreta um presidente inexperiente, mas que vira o jogo depois de aprender a negociar e conhecer as peças do quebra-cabeça da política (Foto: Reprodução/Netflix)

Em uma decisão que não fica muito clara na série, o presidente destitui o secretário na troca de secretários do novo mandato – equivalente a uma reforma ministerial na presidência brasileira – e o convida para ser embaixador do país, em um tipo de prêmio de consolação por “serviços prestados” mas que ao mesmo tempo o rebaixa hierarquicamente. Kirkman hesita e flashbacks mostram seu compromisso inalienável com a família, que sempre está em primeiro plano ao tomar suas atitudes. O secretário pede um tempo para decidir sobre o convite, que acontece na manhã de uma data muito importante para a política federal estadunidense. Um detalhe importante para entender a história: Kirkman tecnicamente foi exonerado e não cumpre nenhuma função executiva, mas permanece sendo um funcionário do gabinete presidencial.

O State Of The Union – Estado da União, em português – é um evento importante do Governo Federal dos Estados Unidos. Uma vez por ano, geralmente em janeiro ou fevereiro, seguindo o Artigo 2 da Constituição daquele país, o presidente deve ir ao Congresso – o “Capitólio” em Washington, D.C. – fazer uma espécie de prestação de contas e apresentar sua proposta política, inclusive as prioridades de governança. Seguindo uma tradição originada na Guerra Fria, durante a cerimônia um membro do gabinete elegível para ocupar a função de presidente da República é nomeado para o cargo de “sobrevivente designado”. Ele deve permanecer em local remoto e sigiloso durante todo o evento no Capitólio, pronto para assumir a chefia do Poder Executivo no caso de uma catástrofe, para “garantir a continuidade do governo”.

E eis que o temido raio cai sobre o lugar. Em um ataque à bomba de proporções nucleares, o lado oeste do Capitólio voa pelos ares, matando quase todo o Congresso e o Governo Federal do país. “Quase”, pois Kirkman está a salvo em outro prédio e dois deputados sobreviverão, o que dará um tom de conspiração que será o fio condutor da história. O ex-secretário imediatamente é convocado para fazer o juramento presidencial. A história tem bom andamento logo no primeiro episódio e é ajudada justamente pela vida real. O tamanho compacto da Constituição dos Estados Unidos faz com que muitos procedimentos pareçam demasiado pragmáticos se comparados a outras cartas magnas. E assim o é com a sucessão presidencial.

Emily Rhodes (Itala Ricci), Tom Kirkman e Lyor Boone (Paulo Costanzo) (Foto: Reprodução/Netflix)

Quando digo que a trama é ágil, não há nenhuma dose de exagero nessa afirmação. Em uma trama muito semelhante à vivida no Brasil, veremos a legitimidade do mandato de Kirkman ser questionada quase o tempo todo, bem como seu frágil traquejo político, que somente será adquirido com a própria vivência do “fazer político” em sua acepção mais maniqueísta. Guarde a palavra “maniqueísmo” mas não, não se assuste, a série passa longe de ser banal. É possível admirar um enredo digno de House of Cards – o britânico, o estadunidense e o brasileiro – com passagens complexas e instigantes marcadas por personagens que representam lobbies, políticos ambiciosos e os que apelam para um nacionalismo torto e deturpado. Mais contemporânea do que qualquer outro seriado de cunho político, Designated Survivor também explora corrupção em financiamento de campanha eleitoral, media training e, claro, fake news.

A despeito de toda sua inexperiência, o sobrevivente designado resistirá à sua crescente torcida para que o patinho feio alcance a glória por pelo menos três temporadas. Provando a resiliência somente proporcionada por sua evidente qualidade do roteiro, Designated Survivor foi cancelada pela ABC em 2018 mas ganhou sobrevida com produção própria do Netflix em 2019. Não durou muito. Enquanto as 2 primeiras temporadas tiveram 21 e 22 episódios respectivamente, a derradeira teve apenas 10 capítulos, para a tristeza de quem aprendeu a torcer para que Kirkman fizesse um bom governo. A expertise política [e crítica] “à brasileira” certamente o faria pensar que este autor criou um “político de estimação”, como se diz por aí. Bem, não farei juízo sobre isso, deixo para que você mesmo tire suas conclusões e nos conte se, depois de terminar DS, você votaria ou não em Tom Kirkman?

“A Onda” completa dez anos dialogando com a realidade

por Egberto Nunes, estudante de Jornalismo e colaborador do blog POLITICANDO


Os termos “extrema-direita” e “fascismo” nunca foram tão discutidos e pesquisados como nos últimos anos. Não só no Brasil, como no mundo todo é fácil achar notícias ou artigos recentes ao pesquisar esses conceitos na internet. O caso de Charlotesville (EUA) em 2017, a ascensão de governos intolerantes pela Europa, as manifestações de extrema direita e o apoio obsessivo a líderes radicais pelo Brasil e pelo mundo são exemplos disso. Mais recentemente, a Alemanha foi palco de um triste ato: os protestos da extrema-direita e a “caça aos imigrantes”.

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Em 27 de agosto, manifestações xenófobicas de extrema-direita tomaram palco em Chemitz, na Alemanha. (Foto: Reprodução/Reuters)

O acontecimento se deu depois da morte de um alemão por esfaqueamento e a detenção de dois suspeitos: um iraquiano e um sírio. No final de agosto, grupos ligados à extrema-direita lançaram uma “caça aos estrangeiros” e fizeram saudações nazi (proibidas no país) no local do crime em Chemnitz, na Saxônia, no leste da Alemanha. Várias fake news surgiram para aumentar o fato e denunciar os imigrantes.

Também foi na Alemanha, o palco para a produção de um dos filmes mais didáticos e frequentemente usados em salas de aula sobre a ideologia fascista (e os perigos da mesma). Falo de A Onda (Die Welle, 2008 – distribuição: Constantin Film/Highlight Film), longa-metragem baseado em fatos reais sobre um experimento realizado por Ron Jones, um professor da Califórnia (EUA), no ano de 1967, em Palo Alto, para estudantes do ensino médio, no intuito de ensinar sobre os eventos que levaram ao Holocausto. O novo método de ensino, nada mais era do que demonstrar como uma população poderia ser tomada pelos ideais do fascismo. A produção tem o seu décimo aniversário esse ano em meio ao acalorado debate sobre o radicalismo político pelo mundo.

A ONDA REPRODUCAO
Símbolos de cumprimento e uniformes iguais para criar uma ideia de pertencimento ao grupo fazem parte do experimento do filme (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Por mais que ele tenha uma premissa até então pesada, o filme começa bem animado, com o professor Rainer Wenger no seu carro cantando bem alto a música “Rock ‘n’ Roll High School”, da banda de rock britânica Ramones. Até então, ele pretendia ensinar sobre anarquismo, mas tem a disciplina tomada por um professor bem mais fechado. No lugar, ele terá que ministrar o curso sobre autocracia, conceito que coloca todo poder centrado em um único líder. Ao testar o conhecimento dos alunos sobre o conceito e em uma dada discussão, ver que eles não enxergam a possibilidade de um “quarto Reich” surgir, ele muda a predisposição das cadeiras, separando grupinhos, institui regras para falar e se dirigir ao líder da classe, como escolhido pela turma, o professor.

Não darei muitos spoilers dos acontecimentos, mas vocês devem imaginar que o experimento sai do controle e em algum momento os alunos começam a levar a lição a sério demais, para fora das aulas. A relação entre os discursos reproduzidos, as relações que cada um tem com o experimento e a forma como enxergam aquilo para as suas vidas acaba sendo o mais interessante da produção.

CENA A ONDA
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Nos tempos nebulosos em que vivemos, é difícil não fazer uma comparação com a realidade ao assistir A Onda. Principalmente no quesito dos personagens. Temos aquela que reluta desde o começo e acha todo um processo um absurdo. Outro a princípio discorda, mas logo depois encarna cegamente o movimento. E, principalmente, aquele que leva o projeto para a sua vida. Dessa forma, conseguimos relacionar facilmente com estereótipos da vida real, que diferente do movimento por si só, estão bem vivos dos nossos lados.

Seria ainda mais interessante acompanhar o filme da perspectiva de um jovem alemão, sabendo do que aconteceu no passado e vendo seu país como está. São feitas menções a Adolf Hitler no filme, lembrando do passado, mas com um desgosto do tipo “isso não vai acontecer de novo” ou “de novo, isso?” Outro longa que explora muito bem essa questão é “Ele está de volta” (Er ist wieder da, 2015) que ficcionaliza a volta do ditador alemão em 2015.

Vale lembrar que em pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em outubro de 2017, foi constatado que o brasileiro tem forte adesão ao autoritarismo. Foram feitas perguntas que envolviam o conservadorismo, a agressividade autoritária e a submissão à autoridade. No geral, em uma escala de 0 a 10, atingimos o nível de 8,1 em apoio ao autoritarismo.

FOLHAPRESS
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Além do longa alemão, um homônimo americano foi realizado anteriormente, em 1981, importante destacar que para ser exibido na televisão. Um documentário chamado “Lesson Plan: The Story of the Third Wave”, contando a história do projeto também foi produzido. Não garanto muito sobre o último, mas as ficções mencionadas podem ser facilmente encontradas pela internet ou em lojas de DVDs. A Onda cabe sempre ser revisto, independente da efeméride, para que suas reflexões sejam contínuas e melhoradas.


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