‘God Save The Future’, por Cesar Cabral

Resenha de “Depois do Futuro” (2009), de Franco Berardi, que discute a mudança de perspectivas sobre o porvir


Dentre as marcas do século XX, a ideia de que o Futuro é necessariamente o Progresso: isto é, o Devir é utópico, e todos os males serão sanados.

Para quem vê a História do século passado, percebe-se diversas conquistas em questões de direitos para quem antes foi esquecido pelo mundo político. O conceito de cidadão não era mais estendido apenas a um pequeno grupo de homens ricos do mundo capitalista; às mulheres foi dado o direito ao voto, assim como outros grupos que seriam excluídos do conceito de “cidadão” (analfabetos, pessoas sem posse). O avanço tecnológico e econômico permitiu ao operário ser livre (O sonho americano). Os direitos humanos garantiram às minorias tratamento digno e quem os protegesse diante de injustiças. O sexo tornou-se livre, a juventude pôde contestar seus pais (maio de 1968). Entre outras coisas.

A esperança utópica, porém, se colapsa, dando origem a sentimentos de um futuro incerto ao mesmo tempo que o risco distópico está bem visível no horizonte de eventos. Dois sentimentos opostos criados pelo mesmo sistema. 

(Arte: Cesar Cabral)

Um futuro “ideal”

Em “Depois do Futuro” (Ubu Editora, 2009), Franco Berardi se propõe a explicar a como a visão do Futuro mudou ao longo do século XX, a visão utópica perturbada pela distopia.  

A obra está disponível em versões física e digital (Foto: Reprodução)

Atribui toda essa esperança aos acontecimentos e desenvolvimentos do início do século XX. A visão do avanço tecnológico, mais vista nos centros do capitalismo ocidental, tem sua síntese no Manifesto Futurista (1909) e o próprio caráter do movimento Futurista

Filippo Marinetti, em seu Manifesto, exalta a qualidade da violência, da força, da figura masculina: 

1. Queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2.  A coragem, a audácia e a revolta serão os elementos essenciais da nossa poesia.
[…]
3. Declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu de uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida cuja carroceria é adornada por grandes tubulações como serpentes de alento explosivo… um automóvel que ruge, que parece correr acima da metralha, é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.
[…]
9. Queremos glorificar a guerra – a única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre, e o desprezo pela mulher.
10. Queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.
[…]

Na opinião do autor, o futuro, é masculino, indomável, e a feminilidade é um empecilho “que reduz a potência produtiva, e, em última análise, agressiva. O princípio competitivo domina o imaginário político e econômico da modernidade que o futurismo quer importar para a Itália” (BERARDI, p.27)

É da corrida e competição produtiva e política que terá como resultado um conflito jamais visto até então, que ainda na ânsia da destruição esperançosa, prometia ser uma “guerra para acabar com todas as guerras”. A guerra era total, civis eram visados assim como os soldados profissionais. 

Berardi destaca duas correntes do Futurismo: a italiana e a russa. A primeira, representada pelo Manifesto de Marinetti, numa Itália à margem do desenvolvimento europeu. O “futurismo italiano tem uma vocação essencialmente nacionalista agressiva e machista” (BERARDI, p.39) É, ainda segundo o autor, que esse nacionalismo agressivo, e o culto ao militar serão refletidos no surgimento do Fascismo.

‘O Ciclista’, de Natalia Goncharova, é uma obra da arte Futurista russa (Foto: Reprodução)

Já a vertente russa surgiu mais tarde, já na Rússia revolucionária. Essa vertente “tem uma vocação internacionalista, afirma o valor solidário da luta de classes e uma ideia libertária e igualitária da relação entre os sexos.” (BERARDI, p.39).

Ambas cultivavam a ideia da violência e de aspectos militaristas, mas muito mais agressiva e com intenções de se ter no cotidiano no ramo italiano do que no russo. A vida civil italiana seria impregnada de aspectos militaristas.  Já a violência do Futurismo russo, conforme o autor, vem do historicismo dialético marxista-leninista, onde se é necessária para que o novo se manifestar, acabar com o velho.

Vanguardas, Bauhaus e publicidade

O autor diferencia o futurismo do dadaísmo no seguinte aspecto: “O futurismo é um movimento fortemente pragmático, suas intenções são claras, afirmativas e arrogantes”, enquanto ao dadaísmo diz que “é difícil falar de programa uma vez que sua figura retórica predominante é a ironia. Na ironia, há sempre uma a consciência da dissociação entre linguagem e realidade” (BERARDI, p.74).

Sendo o dadaísmo tendo uma única coisa pragmática atribuída, segundo Berardi (p. 75), os dizeres de Tristan Tzara:

  • “Abolir a arte;
  • Abolir a vida cotidiana;
  • Abolir a separação entre a arte e a vida cotidiana”.

Para o autor, essa abolição pode ser vista nos projetos da Bauhaus:

“O projeto cultural da Bauhaus desenvolve, de forma positiva, a intenção dadaísta de abolir toda a separação entre a arte e a vida cotidiana. Enquanto o dadaísmo e o futurismo tinham desempenhado seu trabalho com estilo provocativo e rebelde, a Bauhaus assume o ponto de vista da funcionalidade e transfere a tensão revolucionária original para um estilo profissional, construtivo.” (BERARDI, p.62)

Na publicidade, a agressividade da palavra inaugurada pelo Futurismo, com a comunicação funcional feita pela Bauhaus através de uma comunicação “fruível e funcional”. 

E no período de forte inventividade de meios e mídias de comunicação, ao mesmo tempo de ume efervescência cultural e diversas vanguardas têm grande influência, nas palavras do autor: “Há uma proximidade histórica entre a utopia das vanguardas e o processo de formação das mídias modernas, de sua cultura, de sua concepção tecnológica, de sua finalidade.” (p. 68).

A invenção da Televisão muda toda a perspectiva do homem com a mídia, “tornou-se depois o fenômeno talvez mis invasivos na metrópole pós-industrial […] O sistema televisivo penetra em todos os poros da sensibilidade e a publicidade remodela a percepção de si, à espera do futuro, a esperança e o terror” (BERARDI, p. 70)

Berardi nos mostra, a partir de escritos de Velimir Khlébnikov de 1921 em “O rádio do futuro”, de que a mídia de massas, nesse caso o rádio, e futuramente a Televisão, que seria possível usá-lo para fins totalitários: o distribuidor da informação é alguém que trabalha para o Estado, a partir de um único centro.

Sê jovem e cala-te”: o Maio de 68

O 1968 é marcado pelos protestos ocorridos em muitos países. Principal símbolo desse ano é o Maio de 68 na França, que a partir de manifestações de estudantes da Université de Nanterres escala para um movimento de contestação política e comportamental envolvendo a classe operária e intelectual de esquerda.

Manifestações de maio de 1968 levaram universitários às ruas para pedir reformas no sistema educacional da França (Foto: Arquivo/Jacques Marie/AFP)

Contestações surgiram igualmente em outros países: A Primavera de Praga (Tchecoslováquia), a Marcha dos Cem Mil (Brasil) são alguns exemplos.

O autor procura as explicações dos contornos desse fenômeno, em específico o maio francês, em uma ideia derivada do movimento surrealista, que apesar de  não haver “uma vontade declarativa e revolucionária como nas outras experiências de vanguarda” (p.82)

Ele sintetiza o movimento nas seguintes frases: “Sejamos realistas, exijamos o impossível” e “A imaginação no poder”.

“Os surrealistas escreveram poesia conforme as técnicas da escrita automática e da escrita automática coletiva porque pensavam que a poesia era um mecanismo de automanifestação do inconsciente por meio da linguagem, o lugar em que a linguagem fala por si. Stéphane Mallarmé e o simbolismo já haviam pensado isso. Mas o surrealismo liga essa expressão poética do inconsciente a seu projeto político, à sua imaginação do mundo (BERARDI, p.83)

E completa: “Os efeitos políticos do surrealismo estão justamente em ter afirmado a potência transformadora do inconsciente, e em ter apontado no imaginário a força dinâmica, o campo no qual as transformações ocorrem.” (p. 83) 

O impossível é agora possível, a visão do que é possível foi expandida. Daí vem o “os movimentos estudantis, o antiautoritaríssimo, a recusa do trabalho operário, o igualitarismo” (p.83).  Portanto o Maio de 1968 é fruto também de um pensar surrealista e dadaísta.

É um momento final da esperança de um futuro progressista, de males reduzidos. Os “Maios” de 1968 foram uma manifestação de insatisfação comportamental, contra “tudo que estava ali”. Luta por liberdades individuais, contra um conservadorismo que os pais e avós desses jovens tinham, mas que não trespassou à mente dos filhos. Não naquele momento.

Em 1968, a “Primavera de Praga” durou sete meses e impôs reformas ao Estado totalitário governado pelo Partido Comunista da Tchecoslováquia (Foto: Arquivo/L. Halsky)

O sonho acabou

O ano de 1977 é o momento em que o “Futuro-progresso” se finda. 

Em suas palavras, as vanguardas são convertidas, desfiguradas em uma utilização perversa:

“A paixão desestruturante do futurismo italiano coloca-se a serviço da publicidade, dispositivo de controle da imaginação coletiva” e a “alegria criativa do futurismo russo coloca-se a serviço do terror bolchevique. O surrealismo alimenta a engenharia da imaginação (corporated imagineering). As revoltas igualitárias se transformam em ditaduras de Estado.” (BERARDI, p.84)

Berardi lista alguns acontecimentos que marcam as mudanças desse novo período. A começar pela Apple, que segundo ele, foi responsável “pelas interfaces que tornaram possível a difusão social da infotecnologia” (p.85).  Além disso, a cidade desapareceria “engolida pelo sprawl [alastramento] metropolitano, pela disposição de dormitórios e de ciberfábricas interconectadas” (p.85). 

É um tempo marcado por: 1) Desterritorialização social; 2) uma mudança econômica que tiraria o elemento humano das cidades; 2) subjugação de todo fragmento do tempo mental.

O ano de 77 é marcado como o de suicídios de jovens no Japão, no mesmo ano, com 784 mortes autoinfligidas. Além de ocorrem suicídio de crianças. Berardi fala a respeito de algumas produções cinematográficas que previram os comportamentos da nova sociedade, uma sociedade pós-humana tomava forma.

Ao falar sobre O ovo da serpente (Bergman), que “descreve a década de preparação do nazismo como um envenenamento da atmosfera […]” também mostra que tal preparação do nazismo, mesmo que derrotado militarmente, não desapareceu das mentes das pessoas. Segundo Berardi (p.86) a política racial e extermínio dos indesejáveis, trabalho escravo que os nazistas fizeram, hoje também se apresenta “necessário devido ao automatismo econômico da competição”.

O fim da Infância da ficção científica

Dentre as obras de Ficção científica produzidas durante as décadas de 40-50, o avanço tecnológico, um ideal de progresso, uma visão positivista das coisas são presentes (BERARDI, p.95). Já as obras do gênero, lançadas no final do século seguem uma tendência mais distópica, um mundo pós-apocalíptico tecnológico: sendo representado tal segmento pelo subgênero sci-fi cyberpunk.  

Cena de “Star Citizen” (Cloud Imperium Games), jogo de simulação espacial ambientado no “século 30 da Via Láctea” (Foto: Reprodução)

É na estética cyberpunk é escura, poluída, das quais, apesar do grande avanço tecnológico, a pobreza é presente, as luzes são de fontes artificiais que poluem o ambiente, e o sol sequer é frequente na mise-en-scène. Além disso, os prédios titanescos, tecnologias à mão e comunicação instantânea são elementos naturais de um novo ambiente.

Um dos clássicos da literatura cyberpunk é “Neuromancer” (William Gibson), que conta a história de Case, um hacker que ao tentar roubar o dinheiro de seus contratantes falha. Seu fracasso o impossibilita de se conectar com o resto do mundo, se conectar a matrix, ao resto do mundo; algo que ocupou o papel central na vida dos humanos.

Assim, o futuro é tecnológico, mas nada progressista. Nada que vá melhorar a vida de quem não está em um circuito de poder.

Neoliberdade”, neoliberalismo e a popularização da Internet

Ainda que os momentos finais do século XX fossem marcados por sinais de um a esperança da utopia não morrera. E a última manifestação dessa utopia manifesta-se no virtual (BERNARDI, p.103).

Área de trabalho do Microsoft Windows 95, que popularizou (Foto: Reprodução)

É na década de 1990 que a internet se populariza para uso civil. A União Soviética capitulou perante seus problemas internos, e o Comunismo, perante o Capitalismo, levando embora também o terror de um Holocausto nuclear. Foi a década em que o fim da História chegou, segundo Fukuyama. Agora a internet poderia ser usada para uso do público em geral, um mundo de liberdade, sem fronteiras de contato e de tempo.  

A imposição do neoliberalismo perante o mundo deu novas perspectivas de vida para o capitalismo.  A lógica de produção do capital é outra: antes “o corpo físico do trabalhador tinha direito ao descanso, à assistência, à cura, à aposentadoria” (BERARDI, p.139). Mas quando o trabalho vira digital “a pessoa é apenas o resíduo irrelevante, intercambiável, precário do processo de produção de valor. Consequentemente, não pode reivindicar nenhum direito, nem se identificar como singularidade.” (p.139)

Berardi usa o termo “Fractalidade” para definir como é o novo trabalho em tempos de virtualidade: “o trabalhador não existe mais como pessoa. É apenas um produtor intercambiável de microfragmentos de semiose passível de recombinação que entra no fluxo contínuo da rede. […] O trabalhador […] é pago pela sua presença pontual, ocasional, temporária” (p.139), o trabalhado virou um “bico”.

Podemos exemplificar esse pensamento com os apps Uber™, UberEats™, iFood™, e outros do tipo. O trabalhador será remunerado pela disponibilidade que empregou para fornecer sua mão de obra. E ainda só será remunerado caso lhe seja disponibilizado algum serviço – corrida, entrega – dentro do seu tempo de atividade.  Tais trabalhadores não possuem direitos celetistas como seguro-desemprego, remuneração em dias de folga ou por afastamento por questões de saúde.

Berardi também fala que antes o risco de investimento era das empresas, que estariam destinadas a terem grandes sucessos ou colossais fracassos. Hoje, o “somos todos capitalistas” (p.151) fez com que todos tomem conta de seus riscos, mesmo que o capitalista/empreendedor esteja em uma hierarquia, dentro de uma empresa, cumprindo obrigações que lhe são impostas.

Para o autor, essa ideologia empresarial é responsável por uma onda de depressão que acomete boa parte da população. “[A depressão] se apresenta como uma doença da responsabilidade na qual predomina o sentimento de insuficiência. O deprimido não está à altura, está cansado da obrigação de ser ele mesmo” (A. EHRENBERG, apud BERARDI, p.150).

É da falta de algum alicerce, algo que prenda a pessoa à não se matar. Mas para quem perdeu tudo isso, que atrocidades acontecem: massacres seguidos de suicídio por seus perpetradores (Columbine, Realengo, Suzano), ataques terroristas suicidas (13-Novembre), suicídios homicidas (Andreas Lubitz, 11 de Setembro).

“All We Ever Wanted Was Everything”

– Bauhaus


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