Presidente da Abear aposta em plano de aviação regional para recuperar mercado aéreo

Eduardo Sanovicz comenta os desafios enfrentados pelas companhias brasileiras durante a pandemia


A desaceleração da atividade econômica causada pela pandemia do novo coronavírus continua a ser sentida por diferentes setores. Nesta semana, a divulgação do Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br), considerado uma “prévia do PIB”, revelou um tombo que chegou a 11,43% em três meses. Embora os índices de maio revelem sinais de retomada com alta de 1,31% em maio na comparação com abril, as perdas acumuladas em um ano acumulam 14,24%. Há sinais de recuperação da economia, mas as projeções do ritmo preocupam os analistas.

Parte das aeronaves da Latam segue estacionada no Centro de Manutenção da companhia em São Carlos (SP) (Foto: Arquivo/Eduardo Knapp/Folhapress)

Como mostramos na semana passada, um dos setores que mais sentem os impactos da atual situação econômica é a aviação comercial. Também na comparação dos meses de abril e maio de 2020, esse mercado teve ligeira elevação no número de passageiros transportados no país, mas segue distante de recuperar os prejuízos acumulados. Com mais aviões em solo, as companhias aéreas buscam alternativas para atravessar o momento. Apesar da adoção de medidas de contenção de gastos e manutenção de empregos anunciadas no início da crise, algumas demissões começaram a ser anunciadas neste mês de julho.

Para discutir a situação do mercado aéreo no Brasil, as reivindicações feitas ao Governo Federal para estruturar a retomada e conhecer as perspectivas do pós-pandemia, o blog conversou com o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz no final de maio. A entidade possui cinco companhias associadas – GOL, Latam Airlines, Latam Cargo, MAP e Passaredo – que respondem pela maior parte dos voos domésticos operados no país. Para Sanovicz, a retomada pode vir de um plano voltado à aviação regional para atender demandas de deslocamento pelo grande território brasileiro.

Sanovicz diz que empresas formalizaram pedido de linhas de crédito específicas para o setor e que o compromisso das aéreas é saldar os compromissos acordados (Foto: Arquivo/Divulgação/Abear)

KEVIN KAMADA – O IBGE divulgou em abril os primeiros números do desempenho do setor de serviços durante a pandemia. Os dados revelam um encolhimento da atividade econômica das companhias aéreas em 27%, entre os meses de fevereiro e março. Dentre as empresas filiadas à Abear, esses números se confirmam ou a crise vem sendo ainda maior?

EDUARDO SANOVICZ – Os números de fevereiro e março são ainda menores do que os números de abril, quando, de fato, a crise se instala. A redução da demanda por voos domésticos alcança 92% e nos voos internacionais, operados pelas empresas nacionais, a queda é de 100%. Hoje estamos operando 180 voos por dia, sendo que a malha de voos normal é de 2,7 mil voos por dia. Portanto, a queima de caixa das empresas é brutal. Quando a crise se instalou, estávamos com uma perda de R$ 45 milhões por dia. Hoje ela está muito reduzida, mas ainda seguimos voando com prejuízo para atender o país inteiro, na medida em que é importante manter o país conectado e não há outra forma de fazer isso a não ser pela aviação.

KK – Com a redução da malha aérea, muitas empresas têm mantido seus aviões parados nos aeroportos. Como as companhias ligadas à Abear têm lidado com esses gastos fixos? As empresas projetam alguma redução de frota?

SANOVICZ – Aproximadamente 90% da frota hoje está parada, a maior parte dela está estacionada nos pátios de bases aéreas da Aeronáutica, sem custo, e uma menor parte nos aeroportos privados. São gastos bastante altos, pois um avião pode custar mais de R$ 100 mil por mês parado, pois eles precisam de manutenção, entre outros gastos. E no momento ainda não fazemos uma projeção de redução de frota. Essa eventual diminuição, caso aconteça, depende de qual será a resposta da demanda, qual será o volume de passageiros retomando o hábito de voar ao fim da crise sanitária.

Agora, nossa avaliação é a de que sairemos do outro lado, não temos nenhum sinal de que alguma empresa brasileira não atravesse a crise.

KK – Nos países que estão retomando a atividade econômica, o medo de contrair a doença é bastante recorrente entre as pessoas. Assim, a procura pelas viagens aéreas diminuiu significativamente. É possível projetar que as passagens aéreas estejam mais baratas após a pandemia? 

SANOVICZ – No momento os preços das passagens aéreas estão muito baratos porque não há demanda. Quando retornarmos, o preço final vai depender de como estará a cotação do dólar em relação ao real, já que ele é responsável por 51% do nosso custo. Também vai depender de como vai estar o preço do querosene de aviação, que é dolarizado e é um terço do nosso custo dentro desses 51%. E ainda teremos de analisar como estará a demanda em si, quanta gente procurando viagens aéreas e qual tamanho de frota será necessário para atender quem estará voando. Estas variáveis vão definir os preços pós-crise. Ainda não é possível afirmar se as passagens seguirão baratas como estão agora, ou se haverá uma mudança de preço.

KK – Em maio, a controladora da tradicional companhia Avianca pediu falência nos Estados Unidos e alegou sucessivos prejuízos com a paralisação das aéreas na pandemia. As companhias brasileiras correm risco de quebrar?  

SANOVICZ – As empresas brasileiras entraram nessa crise bastante fortes, com musculatura boa, porque registraram um pequeno aumento de mercado, no último ano, em função da Avianca Brasil ter cessado suas atividades em abril de 2019. Agora, nossa avaliação é a de que sairemos do outro lado, não temos nenhum sinal de que alguma empresa brasileira não atravesse a crise.

O nosso desafio é o tamanho e a musculatura que as empresas terão após a crise, porque isso está vinculado à qualidade e profundidade das ações do governo federal em atendimento às demandas que fizemos, particularmente as demandas econômicas, entre as quais se destaca uma linha de crédito que pedimos ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que segue em debate ente as empresas e o banco.

A aviação tradicionalmente é contra subsídio ou ajudas a fundo perdido, pois não entendemos isso como correto. Pedimos empréstimos e pagamos nossas dívidas.

KK – O Governo Federal ainda não anunciou nenhum plano específico de socorro às empresas aéreas. Existe alguma articulação da Abear para que possíveis empréstimos ou ajuda a fundo perdido venham mais brevemente para as companhias aéreas?

SANOVICZ – Nós fizemos um conjunto de demanda ao governo federal. Uma parte são medidas nas áreas de regulação e infraestrutura, todas implementadas e atendidas, sendo a de maior visibilidade pública o acordo com o Ministério Público Federal e Secretaria Nacional do Consumidor para que os consumidores possam ter até um ano para remarcar seus bilhetes sem custo.

Outras medidas foram a implementação de uma malha mínima essencial que está atendendo o país e que foi preciso uma articulação com a Agência Nacional de Aviação Civil, Ministério da Infraestrutura e Conselho Administrativo de Defesa Econômica, entre outras iniciativas. E fizemos seis pedidos na área econômica.

O primeiro e mais importante foi um empréstimo junto ao BNDES, como já mencionei anteriormente. Não há nenhuma demanda ou pedido de ajuda a fundo perdido ou subsídio. A aviação tradicionalmente é contra subsídio ou ajudas a fundo perdido, pois não entendemos isso como correto. Pedimos empréstimos e pagamos nossas dívidas. O segundo pedido mais importante é para que seja liberado o FGTS dos aeronautas (tripulação de voo: pilotos e comissários) em licença sem remuneração. Há mais quatro demandas de ordem tributária. 

KK – A aviação regional cresceu bastante nos últimos anos no Brasil. A demanda oscilante por esses destinos mais interioranos sempre foi um impasse que inviabilizou a continuidade dessas operações, por não ser financeiramente compensador. Com a pandemia, muitas dessas localidades ficaram desassistidas. É certo dizer que o mercado aéreo regional deve encolher no pós-pandemia?

SANOVICZ – Por uma infelicidade muito grande a crise nos pegou quando já estávamos agendados para apresentar ao governo federal a nossa proposta de política de aviação regional, pois a defendemos como algo importante para complementar a malha aérea brasileira, além de ser fundamental para a mobilidade dos brasileiros e atender demandas muito importantes das pessoas em um país que se você não andar de avião, algumas vezes o plano B é andar de barco por mais de um dia, especialmente na Região Norte do país. Portanto, entendo que não é verdade que esse mercado vai encolher no pós-pandemia.

Creio que é mais um dos desafios que temos para aprofundar nossos debates no pós-crise sobre o mercado regional para que ele possa crescer. Essa atividade é muito dependente de políticas públicas. Reitero que temos uma proposta inspirada em exemplos nos Estados Unidos, Europa e Ásia que estávamos agendados para levar ao governo federal, ao Ministério da Infraestrutura, quando a crise nos pegou. É uma agenda pendente para ser retomada assim que for possível.

Autor: Kevin Kamada

Estudante de graduação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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