Brasília aos 60

A concretização do sonho nova capital federal do Brasil completa seis décadas


Um sonho ousado e, deveras dispendioso, acaba de completar 60 anos. Antes de se instalar no coração do Brasil, o Distrito Federal se instalou em outras duas localidades: a Bahia, por sua capital Salvador e o extinto estado Distrito Federal do Rio de Janeiro (de 1960 a 1975, estado da Guanabara). Duas cidades litorâneas e que, na visão de José Bonifácio de Andrada e Silva, considerado o patriarca da Independência, colocava a autonomia brasileira em risco. Isso porque nos séculos XVIII e XIX, os corsários franceses se tornaram um símbolo mundial da ameaça de invasão planejada por outros países, seja com objetivo de saquear ou de expandir seus limites territoriais. Logo, para o pensamento de Bonifácio, fazia-se necessária a transferência para um local mais interiorano, distante do litoral e das facilidades de uma eventual tomada de poder. A ideia levantada em 1821 não foi incorporada na Constituição de 1824, e permaneceu esquecida por várias décadas por falta de vontade política.

Por várias décadas, recortes de mapas incluíam o “Quadrilátero Cruls” no coração do mapa do estado de Goiás, a área prevista para a construção do novo Distrito Federal do Brasil (Foto: Reprodução/Arquivo Nacional)

O assunto “nova capital” voltaria à pauta com ares de grandeza logo após a proclamação da República, com a rubrica do senador pelo Piauí, Nogueira Paranaguá. Em 1891, o piauiense apresentou um projeto de lei oficializando o pedido de transferência da capital do litoral para o interior, adicionando aos seus argumentos o fato de o Rio de Janeiro ser uma cidade bastante insalubre por conta da letalidade causada pela febre amarela. Sem grandes dificuldades, a lei foi aprovada e promulgada em 24 de fevereiro daquele ano. 

Além do chamado “Relatório Cruls”, o Governo Federal já havia encomendado outros estudos para denominar áreas para a possível capital federal. Junto com Cruls, a proposta mais chamativa era a do Retângulo Belcher, produzido por uma empresa norte-americana de mesmo nome e que propunha quatro grandes sítios ‘ideais’ dentro do território maior. Cruls lapidou o levantamento. (Foto: Reprodução/Arquivo Nacional)

Pouco tempo depois, o Congresso Nacional aprovou e o presidente Floriano Peixoto sancionou uma grande expedição até a região do Planalto Central do Brasil com o objetivo de delimitar uma área para o novo Distrito Federal. Esse trabalho ficou conhecido como “Missão Cruls”, por ter sido liderado pelo engenheiro belga Luís Cruls, que viajou junto de especialistas de inúmeras áreas como astronomia, engenharia, medicina e, claro, dos militares. A conclusão dos estudos levou à demarcação do “Quadrilátero Cruls”, o retângulo geográfico sobre o estado de Goiás que passaria a abrigar o novo DF. Uma segunda expedição foi realizada em 1894 para decidir especificamente onde ficaria o centro administrativo – Brasília – bem como o ponto ideal para o alagamento e a criação do Lago Paranoá. 

Há quem acredite que um santo italiano profetizou a criação da nova capital federal. Giovanni Melchior Bosco, o “Dom Bosco”, fundador da Congregação dos Salesianos, teria sonhado com a localização atual da cidade, e transmitido isso ao seu assistente, o padre Leymone, que posteriormente escreveu uma biografia de seu tutor, “Memórias Biográficas de São João Bosco”. O relato faz parte da obra.

Entre os graus 15 e 20 havia uma enseada bastante longa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: -Quando se vierem a escavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, de onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.

“MEMORIE BIOGRAFICHE DI S. GIOVANNI BOSCO”, PP. 385-394, VOL. 16, SOCIETA EDITRICE INTERNAZIONALE – TORINO, 1935

O sonho de Bosco emulava uma viagem pela América do Sul, entre a Colômbia e o sul da Argentina, onde o sacerdote buscava por povos e riquezas. O relato conta que ao passar pelos paralelos 15º e 20º, o padre teria visto um local especial e teria sido orientado por um anjo se tratar da “terra prometida” e local onde minaria “uma riqueza inconcebível”. Brasília, de fato, viria a desenvolver uma relação simbólica muito forte com o padre italiano.

A Ermida Dom Bosco é uma capela localizada às margens do Lago Paranoá e, junto com as primeiras casas das vilas provisórias dos candangos, foi a primeira construção de Brasília. A obra é assinada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (Foto: Francisco Aragão)

Embora o sonho estivesse pronto no papel, com todos os estudos prontos além da lei da transferência estar em pleno vigor nas Constituições de 1934 e 1946, não houve interesse político nos governos seguintes. O projeto seria resgatado do quase esquecimento com a ascensão de Juscelino Kubitschek à presidência da República, em 1955, e a apresentação de seu vastamente conhecido programa de governo, o “Plano de Metas”. Com um lema chamativo que prometia fazer o Brasil avançar “50 anos em 5”, JK selava o caráter desenvolvimentista da sua política econômica. Em outras palavras, o desenvolvimentismo se apresentou com um estímulo à industrialização de base por meio abertura do país ao investimento estrangeiro, levando o Brasil a alcançar patamares históricos da entrada de divisas externas até aquele momento. O mesmo valia para investimentos nos setores de produção de energia e transportes. 

Juscelino e seu vice, João Goulart, falam à Rádio Nacional (Foto: Arquivo Nacional)

Ainda no período eleitoral, JK sinalizava com frequência a mudança dos olhares do litoral para o interior do Brasil. Escolheu justamente o centro geográfico do mapa brasileiro para iniciar sua campanha à presidência. Logo no primeiro comício, em 5 de abril de 1955 na cidade goiana de Jataí, um jovem vendedor de seguros perguntou se o candidato estaria disposto a transferir a capital federal. Surpreendido com a questão, Kubitschek repetiu a promessa de respeitar inteiramente a Constituição, e que assim também tiraria a nova cidade do papel. Os 30 tópicos do Plano de Metas ganhariam um item nº. 31 com a promessa de construir Brasília. Eleito, o presidente enviou mensagem ao Congresso Nacional propondo a criação da estatal Novacap, empresa que geriria as obras.

Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino.

JUSCELINO KUBITSCHEK, 2 OUT. 1956, FRASE CRAVADA NA FACHADA DO MUSEU histórico DE BRASÍLIA
“Plano Piloto” é o projeto urbanístico da Região Administrativa I de Brasília, idealizado por Lúcio Costa. O projeto que se assemelha ao charuto e às asas de um avião foi tombado como Patrimônio Histórico pela Unesco em 1987 (Foto: Arquivo Público do DF)

A execução de Brasília saiu de duas mentes bastante conhecidas da arquitetura e da engenharia nacionais. O “Plano Piloto”, planta que projetou a principal região administrativa da cidade na forma de um avião, foi elaborado pelo arquiteto Lúcio Costa que se sagrou vencedor do concurso em 1957. Oscar Niemeyer, velho amigo de JK, foi responsável por projetar grande parte dos edifícios brasilienses, principalmente aqueles ligados ao governo. De suas mãos saíram os palácios do governo que integram o “Eixo Monumental”, assim como a Catedral, o Palácio da Alvorada, entre muitas outras construções até mesmo posteriores à inauguração. Registrem-se as memoráveis contribuições do paisagista Roberto Burle Marx e do artista Athos Bulcão amplamente presentes nas curvas e acabamentos dos jardins e prédios brasilienses. A construção, literal, foi executada graças à bravura de trabalhadores de diversas partes do país que se mudaram para a nova cidade para trabalhar como pedreiros, motoristas, operários de máquinas. Os construtores de Brasília recebem o simpático apelido que se confunde com o gentílico da cidade: são os candangos.

O sonho de Dom Bosco, dos primeiros constitucionalistas ou do próprio Juscelino se concretizou em 21 de abril de 1960, dia da inauguração de Brasília. O ponto alto da cerimônia teve o primeiro discurso presidencial, feito no parlatório do Palácio do Planalto.

Deste Planalto Central, Brasília estende aos quatro ventos as estradas da definitiva integração nacional: Belém, Fortaleza, Porto Alegre, dentro em breve o Acre. E por onde passam as rodovias vão nascendo os povoados, vão ressuscitando as cidades mortas, vai circulando, vigorosa, a seiva do crescimento nacional.

Brasileiros! Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai a vossos filhos o que está sendo feito agora. É sobretudo para eles que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.

Neste dia – 21 de abril – consagrado ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ao centésimo trigésimo oitavo ano da Independência e septuagésimo primeiro da República, declaro, sob a proteção de Deus, inaugurada a cidade de Brasília, Capital dos Estados Unidos do Brasil.

JUSCELINO KUBITSCHEK, 21 abr. 1960, discurso de inauguração de brasília
O Eixo Monumental de Brasília, visto a partir da Torre de TV, é a avenida principal de Brasília. Corresponde ao “charuto” do avião, no Plano Piloto de Lúcio Costa (Foto: Arquivo/Valdemir Cunha)

O julgamento a que o presidente Juscelino Kubitschek menciona se faz presente até os dias atuais. Quanto custou a construção da nova capital? Não há um valor fechado, uma vez que a cidade entregue em abril de 1960 não estava totalmente pronta. Outros palácios, setores e avenidas foram construídos após aquela data. 

Eugênio Gudin (1886-1986), ministro da Fazenda no governo de Café Filho – antecessor de JK – estimou o custo da construção de Brasília em US$ 1,5 bilhão, em cifras de 1960. O valor era o equivalente a 10% do PIB brasileiro naquele ano, US$ 15 bilhões absolutos da época. Em valores corrigidos pela inflação do dólar americano nestes 60 anos, seriam US$ 13 bilhões atuais ou R$ 68 bilhões. O valor corresponde a aproximadamente 60% do orçamento destinado ao Ministério da Educação em 2019, R$ 118,4 bilhões. 

Em entrevista ao Poder360, o cientista político e professor da Universidade de Brasília, Paulo Kramer, afirma que a construção da cidade foi necessária para fazer a integração do país. “Demoraria muito se esperássemos que viesse naturalmente em uma sociedade que depende tanto do Estado como a brasileira”, afirma. Já o ex-diretor do Banco Central, o economista Alexandre Schwartsman, aponta a inversão de prioridades na execução da obra. “Preferimos gastar com concreto enquanto outros gastaram com gente”, diz. Ele afirma que enquanto Brasília era construída, a Coreia do Sul direcionava recursos para a educação. Se, em 1960, o Brasil tinha um PIB per capita de US$ 210 e o país asiático US$ 158, 60 anos depois a realidade se mostra bastante diferente. São US$ 31.430 na Coreia do Sul ante US$ 8.796 no Brasil em 2019.

Embora o assunto abra espaço para inúmeras discussões válidas como a citada acima, a dimensão grandiosa e o desafio do que se realizou no sertão brasileiro em plena década de 1950 já se faz marcante na história. Merece ser relembrado.

Da mesma forma como debatemos hoje, no aniversário de mais uma data ‘redonda’ de “BSB”, as discussões continuarão existindo nos demais aniversários da sua existência. A importância está em suscitar debates construtivos que possam aperfeiçoar as visões e ideias daquela época, e melhorar futuros planos de se executar uma obra nos moldes do que foi a construção de Brasília. Será que algum dia veremos outra obra desse porte?

Como evocou o poeta, Brasília cumpriu seu objetivo de estar no centro das discussões nacionais.

Tradicional gesto do aceno do presidente imortalizado no obelisco do Memorial JK, inaugurado em 1981 (Foto: Arquivo/Roberto Castro/Ministério do Turismo)

Autor: Kevin Kamada

Estudante de graduação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.