O que está acontecendo com o petróleo e o dólar?

Entenda os motivos que levaram à disparada do dólar e do petróleo nesta semana


Você provavelmente já ouviu a seguinte frase: “O bater de asas de uma borboleta na China pode desencadear um tornado no Brasil”. Assinada pelo matemático Edward Lorenz, que a declarou na década de 1960, esse enunciado tem o poder de mexer com o imaginário das pessoas sobre as chances de uma catástrofe dessa realmente acontecer. Bem, é usando dessa alegoria que vamos te convidar a entender o assunto desse texto.

Na economia internacional, o petróleo é considerada uma commodity, ou seja, uma mercadoria. Por ser um produto natural disponível em larga escala ao redor do mundo – com eventuais variações de qualidade de região para região – passou a ser negociado como um produto comum entre países que o tem em grande volume e aqueles que dispõem de pouca ou nenhuma reserva. No dia a dia das relações internacionais, isso pode acontecer como em uma compra simples em que se vende o bem e paga em dólar – a moeda de referência para esse tipo de negócio globalmente.

Plataforma de extração de petróleo da Petrobras no litoral do Espírito Santo (Foto: Alexandre Brum/Arquivo/Petrobras)

Como podemos presenciar no dia a dia urbano, a humanidade é altamente dependente da gasolina e do diesel, combustíveis fósseis produzidos a partir do petróleo. Do trator que carrega as verduras plantadas no sítio, passando pela caminhonete que as leva do campo até o entreposto, o caminhão que leva aos portos, os aviões que transportam entre cidades, estados e países… Tudo está conectado. Um exemplo dessa dependência foi o colapso da economia brasileira visto na Greve dos Caminhoneiros, em maio de 2018, impulsionado pelo bloqueio da circulação de combustíveis.

(Fonte: Petrobras)

Historicamente, o mercado petroleiro mundial está concentrado tem alguns polos como a Arábia Saudita, o Irã, a Venezuela, a Rússia e os Emirados Árabes Unidos. São países que, comprovadamente, têm as maiores reservas subterrâneas desse produto. No capitalismo, a economia dos países se norteia pela regra básica apelidada “Lei da Oferta e da Procura”. Assim, quanto maior a quantidade de um certo produto disponibilizado para venda, menor será o preço geral. Do contrário, quanto mais escasso, maior será a sua cotação. Assim está acontecendo com o petróleo.

Muitos países têm sofrido diretamente com a disseminação da nova cepa do coronavírus. A grave doença respiratória CoviD-19, que ainda não possui formas específicas de tratamento, vem provocando reações diversas em todo o mundo, e a medida urgente que mais tem sido adotada é o decreto de quarentena. Assim, empresas deixam de funcionar para evitar a propagação e o contágio de seus funcionários com o novo vírus. Com mais pessoas em casa, menor circulação pelas ruas, o problema da dependência do petróleo na sociedade diminui momentaneamente. Como explicado acima, quanto mais “sobra”, menor é o preço. Veja um exemplo disso na diminuição da poluição em território chinês, antes e depois da epidemia de CoviD-19 no país:

Para os países que têm economias dependentes da exportação dessa commodity, o avanço do coronavírus pelo mundo pode representar um grande desfalque. O exemplo mais próximo dos brasileiros é a Venezuela, país que além dos conflitos políticos internos, sofre com a desvalorização do petróleo, seu principal produto e aquele em que detém a maior reserva mundial. Apesar disso, é interessante observar que a precarização técnica de sua estatal, a Petróleos de Venezuela (PDVSA), impede o país do regime Maduro de explorar a capacidade real de suas reservas. Se, em janeiro de 2004, o barril de petróleo era cotado a US$ 110 (110 dólares americanos), em janeiro de 2016 o preço caiu a menos de US$ 35 (35 dólares americanos).

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) foi criada em 1960 e é composta por 13 nações. A OPEP defende os interesses comuns e faz regulação da economia do petróleo entre as nações signatárias.

Na sexta-feira, a OPEP tentou intermediar um acordo com a Rússia, convidando o país comandado por Vladimir Putin a se unir ao grupo para, momentaneamente, regular o volume de produção de petróleo e assim normalizar a cotação dessa commodity para valores mais interessantes a esses países. O governo russo não aceitou o acordo que propunha a redução da oferta em 1,5 milhão de barris por dia. Em retaliação do jogo político-econômico, a Arábia Saudita anunciou neste domingo que colocará um volume maior de petróleo à venda em abril. Se a demanda já estava suprimida, o aporte feito neste momento provocou uma queda brusca na cotação do petróleo. Os sauditas conseguem, em contrapartida, aumentar sua participação do mercado petrolífero internacional.

Um termo muito comum no noticiário é a sigla “Brent”. Este é um dos tipos de petróleo comercializado principalmente na Bolsa de Valores de Londres, e se norteia pelas extrações feitas no Mar do Norte e no Oriente Médio – região onde a Arábia Saudita está localizada. Outro tipo é o barril de petróleo West Texas Intermediate ou, simplesmente, “WTI” extraído na região do Golfo do México e negociado na Bolsa de Nova York.

Por que a gasolina não cai no Brasil?

No Brasil, o monopólio das atividades ligadas ao petróleo foi extinta em 1997, quando a Lei do Petróleo autorizou outras empresas a virem para o Brasil explorar petróleo. Ainda assim, a Petrobras continuou sendo proprietária de 13 refinarias das 17 que existem no país, o que corresponde a 98% da capacidade de refino e, consequentemente, do controle dos preços.

Atualização: A cotação de US$ 45,27 corresponde à atualização das 12 horas de 6 de março de 2020. O barril do Brent terminou o dia cotado a US$ 34,36.(Fonte: Tendências Consultorias | Reuters)

Na primeira metade dos anos 2010, a economia brasileira viu sua inflação subir em decorrência de uma série de fatores que incluem a política econômica do governo e o mercado internacional de commodities – incluindo a cotação do barril de petróleo. Assim como outros países, o país também depende da importação de petróleo para suprir a demanda interna de produção de combustíveis, o que fazia o governo brasileiro estar vigilante em acompanhar essa flutuação de preços e intervir caso lhe interessasse.

A tendência naquele momento seria repassar o aumento do petróleo para o valor nas bombas de combustíveis, o que não foi feito. Nessa época, a política energética do governo brasileiro optou por subsidiar o preço da gasolina, aliviando o bolso do consumidor. Assim, os preços foram mantidos congelados. Em entrevista ao portal MinasPetro, o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, explica. “O barril estava em US$ 70, e a Petrobras vendia gasolina como se fosse a US$ 40 ou US$ 50. É como se ela importasse a gasolina a R$ 1 por litro e vendesse por 80 centavos”, comentou.

Os efeitos disso foram percebidos pouco tempo depois. Em novembro de 2013, a estatal brasileira decidiu reverter a política, anunciando aumentos do preço da gasolina e do diesel. A medida voltaria a ser adotada adiante e a ser uma tendência da empresa para os próximos anos após a divulgação de relatórios que indicavam sucessivos prejuízos dos balanços financeiros. Em agosto de 2014, a Petrobras acumulava rombo 55% superior ao ano anterior.

Em julho de 2017, a diretoria da estatal optou por adotar uma nova política de reajustes que caminha junto com variações combinadas da cotação do dólar e do barril de petróleo. Dessa forma, os fatores podem colaborar para um aumento ou uma diminuição do preço do combustível que sai das refinarias em direção aos postos. A Petrobras 

No início de fevereiro, por exemplo, a Petrobras diminuiu o preço da gasolina em 4,3% e do diesel em 4,4%, em função da queda do petróleo naquela época.

Repasse nas bombas

O presidente da República em exercício, Hamilton Mourão, descartou o aumento de impostos para compensar a queda do petróleo pois acredita que a crise é transitória. Em entrevista ao chegar ao Palácio do Planalto nesta segunda-feira (9), ele comentou a crise. “Não podemos adotar imposto neste momento. Há uma carga que vale um terço do nosso PIB. Eu particularmente não vejo possibilidade de aumento de impostos. A gente sabe que também é transitória. Vamos ver qual a reação a Petrobras vai colocar”, declarou.

(Foto: Reprodução/Facebook)

No exterior, o presidente Jair Bolsonaro se pronunciou pelas redes sociais e afirmou que não há qualquer possibilidade de o governo aumentar o percentual do imposto CIDE dos combustíveis. A nota diz ainda que “a Petrobras não sofre qualquer interferência do governo e continuará mantendo sua política de preços, ou seja, a tendência é que os mesmos passem a cair nas refinarias”.

Histórico internacional

A influência que a Arábia Saudita tem em relação ao petróleo no mundo já havia sido testada recentemente. Em setembro de 2019, o bombardeio de drones às instalações de uma refinaria da empresa Saudi Aramco interrompeu a produção de 5,7 milhões de barris, equivalente a 5% da oferta global. Um dia após o ataque, a cotação de novembro disparou.

O episódio mais conhecido aconteceu em 1990 na Guerra do Golfo entre Iraque e Kuwait. O conflito teve início quando o exército iraquiano invadiu o pequeno país que possuía 20% das reservas de petróleo do mundo. Com o objetivo de restabelecer o prestígio perdido na Guerra Irã-Iraque (1980-1988) e obter divisas prejudicadas pela baixa cotação do barril na época – o Iraque tem vastas reservas dessa commodity – o regime de Saddam Hussein incendiou mais de 700 poços de extração no país invadido. Na época, as ações provocaram a queda do preço do petróleo tipo Brent em 31%. 

Cotação do dólar

Analistas econômicos têm apontado uma série de fatores como responsáveis pela elevação do dólar comercial. De janeiro a março deste ano, a moeda norte-americana já acumula alta de 15,47%. Da mesma forma como explicamos que acontece com o petróleo, a cotação do dólar sobe quando o dinheiro se torna escasso no mercado brasileiro, o que vem sendo chamado de “fuga de dólares”, causada pela retirada abrupta de investimentos – negociados em dólares – na Bolsa de Valores do Brasil. No pregão encerrado na sexta-feira, a B3 em São Paulo superou recorde anual histórico, com saída de R$ 44,8 bilhões também no período de janeiro a março.

Economistas apontam várias razões para esse movimento. Entre eles estão o receio da disseminação do coronavírus em outros países do mundo, a expectativa de desaceleração da economia da China – país onde a síndrome respiratória surgiu em janeiro, a crise política interna que ameaça o andamento de reformas econômicas no Brasil e o crescimento pequeno do PIB do Brasil em 2019.

O câmbio é uma das variáveis adotadas no cálculo de altas e reduções dos combustíveis pela Petrobras.


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Autor: Kevin Kamada

Estudante de graduação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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