Cristovam Buarque: “Não aproveitamos a chance que o Brasil nos deu”

O investimento em Educação é uma das maiores e mais antigas demandas do Brasil. Há pelo menos 30 anos, tornou-se uma das bandeiras defendidas pelo recifense Cristovam Buarque (Cidadania). 

Ex-ministro da Educação no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-senador da República [2003-2019] e ex-governador do Distrito Federal [1995-1999], Buarque tem uma longa vida pública. Ao longo dos anos, firmou-se como uma liderança influente na Educação, onde atuou como professor e depois reitor da Universidade de Brasília.  Depois, passou a atuar como consultor de programas sociais ligados à Organização das Nações Unidas.

Recentemente, Cristovam publicou o e-book “Por que falhamos – o Brasil de 1992 a 2018”, onde faz uma autocrítica aos governos progressistas que chegaram ao poder no país ao longo da redemocratização.

Para refletir sobre o atual cenário da Educação no Brasil e entender sua visão sobre a autocrítica progressista, o senador concedeu uma entrevista ao blog que pode ser acompanhada na íntegra.

Buarque foi senador pelo Distrito Federal por dois mandatos, entre 2003 e 2019 (Foto: Reprodução/Agência Senado)

POLITICANDO – A edição mais recente do ranking internacional Pisa mostra o Brasil ocupando apenas a 57ª colocação. Apesar dos recuos, o atual gabinete do MEC já afirmou que pretende investir menos no ensino superior para realocar os recursos para a educação infantil.

CRISTOVAM BUARQUE – Não apenas investir mais em educação de base, tem de investir melhor e federalizar mais, sem reduzir gastos em educação superior, ciência e tecnologia, embora buscando melhor eficiência.

P – Ainda sobre investimentos, 2019 foi um ano de embates no ensino superior federal com os polêmicos contingenciamentos de recursos. O argumento do governo obstinado a zerar o déficit fiscal promovendo cortes em um setor essencial é bastante contraditório, não?

C.B. – Não é contraditório para este governo sem projeto para o Brasil e que detesta inteligência, porque pensa subordinado à ideologia, em geral ultrapassada. Contingenciar gastos com ensino superior é asfixiar o futuro do Brasil. Mas as universidades precisam entender que o pior contingenciamento que elas sofrem não é falta de dinheiro, mas o abandono educacional de milhões de crianças e a baixa qualidade da educação de base que receberam seus alunos. Além disto, devem perceber que há uma crise fiscal real e que para receber mais recursos devem lutar por mais recursos indicando de onde tirar. Não apenas dar mais prioridade à universidade, mas mudar as prioridades. É imperdoável que as universidades não denunciem os desperdícios e as corrupções. A comunidade universitária assistiu em silêncio a construção e o roubo no Estádio Mané Garrincha. Os R$ 2 bilhões gastos ali evitariam todo contingenciamento.

P – Em 2019 o MEC se envolveu em muitas polêmicas. Numa delas, chegou a acusar as universidades públicas de “doutrinar ideologicamente” seus alunos, e impôs cortes de recursos a essas instituições. De uma forma geral, essa política do “combate à ideologia” se tornou a política oficial do MEC. Como ex-ministro, como o senhor avalia essa postura atual do ministério?

C.B. – Absurda porque nossos alunos não são massa de manobra, vergonhosa porque na verdade o atual governo que tenta ideologizar o ensino superior. 

As universidades precisam entender que o pior contingenciamento que elas sofrem não é falta de dinheiro, mas o abandono educacional de milhões de crianças e a baixa qualidade da educação de base que receberam seus alunos.

P – Um de seus livros, “Aventura na Universidade” (1994) destaca a importância do ensino superior na formação da humanidade. No entanto, o senhor escreve que as universidades vinham adquirindo um caráter provinciano, reproduzindo recortes sociais bastante específicos e abdicando da diversidade tão fundamental a esses espaços. Falando do ensino superior no Brasil, o senhor acredita que evoluímos para ter universidades menos provincianas ao longo desses anos?

C.B. – Este livro já tem 30 anos, mas continua atual. Como tudo no Brasil, evoluímos ficando para trás em relação ao resto do mundo. Continuamos com um sistema universitário provinciano. Um sistema que ao falar português não consegue dialogar com o mundo. A falta de inglês como língua franca do mundo universitário é um contingenciamento que a comunidade não percebe. O provincianismo é tal que se um Nobel quiser ser professor em uma universidade estatal brasileira ele terá de fazer concurso e é capaz de ser reprovado. O pior disto é que a universidade é vista como fábrica de diplomas para servir como escada social para os alunos que ingressam nela, e não como alavanca do progresso graças aos alunos que se formam nela.

P – Ainda sobre educação, o presidente Bolsonaro declarou recentemente sua intenção de retomar o uso das cartilhas “Caminho Suave” para a alfabetização nas escolas, um material que deixou de ser usado no país em 1996. Nessa oportunidade, o presidente afirmou que os livros atuais têm “muita coisa escrita”.

C.B. – Não vale a pena comentar besteiras. Acho que o problema do analfabetismo não está no método usado. Devemos dar liberdade ao professor. O problema é que não há vontade do Brasil, não só deste nem dos governos da república que escreveram um lema na bandeira e nunca se propuseram a erradicar o analfabetismo.

Não aproveitamos a chance que o Brasil nos deu, nem estivemos à altura do momento histórico nessa fase da humanidade. O Brasil melhorou nesse período, mas muito aquém do deveríamos, poderíamos e se esperava de nós.

P – No artigo “Onde erramos – de Itamar a Temer”, publicado na Gazeta do Povo em agosto, o senhor pontuou uma série de aspectos que considera erros cometidos pelos governos progressistas no Brasil desde a redemocratização. Um deles, nas suas palavras, foi “enganar os eleitores do presente com o populismo”. Na sua visão, em quais aspectos isso aconteceu nesses governos?

C.B. – Não tivemos compromissos reais com a quebra do círculo da pobreza. Nos 26 anos dos governos democrático-progressistas não erradicamos o analfabetismo de adultos, não colocamos saneamento nas casas, não melhoramos a qualidade da educação de base, nossas cidades pioraram, a corrupção continuou, as mordomias, desperdícios, privilégios continuaram, seguimos campeões em concentração de renda… Não aproveitamos a chance que o Brasil nos deu, nem estivemos à altura do momento histórico nessa fase da humanidade. O Brasil melhorou nesse período, mas muito aquém do deveríamos, poderíamos e se esperava de nós. Erramos tanto que fizemos o eleitor preferir o governo que está aí.

P – Na época da publicação, o artigo limitava a análise ao Governo Temer. Em janeiro de 2020, o populismo a que o senhor se referiu se estende ao Governo Bolsonaro?

C.B. – O artigo não limitava ao Temer. Eu considero o período dos cinco governos democrático e progressistas, de Itamar a Temer. Todos eles lutaram contra o regime militar, diferente de Collor e Sarney que só optaram pela democracia no final do regime militar. Temer foi vice duas vezes do PT. O governo Bolsonaro é autoritário e anti povo, não dá para chamar de populista.

P – Mais recentemente, ao Poder360, outro de seus artigos cita a necessidade de uma autocrítica sobre os 26 anos de governos progressistas. Isso, ao mesmo passo em que o líder do Partido dos Trabalhadores, o ex-presidente Lula, costuma rejeitar este argumento.

C.B. – Lamento que o PT tenha colocado a carapuça. O livro começa citando uma visita a escola que fiz quando o Itamar e FHC já tinham terminado seus governos: mais de uma década de governos democráticos e progressistas. Lamento que se recusem também a não perceberem qualquer dos 24 erros que apresento. Poderiam dizer que não houve corrupção, que fizemos as reformas necessárias, que o Brasil esta entre as melhores educação do mundo, que nosso indicador de distribuição de renda está ótima, que nossas cidades ficaram melhores, que deixamos bandeiras fincadas que o povo reconhece como nossas e vão tirar o Bolsonaro e nos colocar se volta. A culpa não é só PT que ficou apenas metade do tempo desse período. Mas o povo esperava mais do PT e espera agora que analise onde nós erramos. Fechar os olhos para os erros é o mesmo que dizer que a União Soviética foi destruída pelo Reagan e pela Thatcher, sem reconhecer os erros cometidos ao longo de décadas pelo partido comunista, que não entendeu as mudanças que ocorriam no mundo.

P – Diante do acirramento da polarização entre esquerda e direita, algumas lideranças progressistas têm declarado que somente a união com o centro é uma alternativa viável. Em janeiro, o jornal O Estado de S. Paulo trouxe reportagem mostrando que o governador maranhense, Flávio Dino, tem intensificado articulações com possíveis nomes liberais que são cotados para disputar a presidência em 2022. O centro é mesmo a alternativa?

C.B. – A falta de uma bandeira nossa, que diferencie nossas propostas para o futuro do Brasil, faz com que busquemos uma aliança só para tirar Bolsonaro e Lula do poder e o resto continuar tudo no mesmo: o Brasil sem coesão social no presente e rumo para o futuro. Não vão conseguir porque os muitos candidatos do chamado centro, com um cheiro de direita ou de esquerda não abrir mão de serem candidatos sem um programa que pudesse uni-los. No final, vão querer marcar posição com muitos candidatos e depois irão para o PT ou para Bolsonaro. 2022 está muito parecido a 2018. Se for em função de uma bandeira, um programa com itens radicais, como implantar uma estratégia para que tenhamos em algumas décadas educação com a máxima qualidade para todos: os filhos dos pobres e dos ricos em escola com a mesma qualidade, não será o Centro, será o Avanço e porque excluir o PT desta aliança. Desde que reconheçam seus erros e percam a arrogância de que só eles têm legitimidade. Esta posição termina levando ao labirinto seguido por Evo Morales: ou eles ou ninguém.

P – Como o senhor avalia a situação política do ex-presidente Lula? Depois da soltura, ele continua sendo uma liderança política no país?

C.B. – Claro que é uma liderança. Mas não a única, nem superior como ele e o PT imaginam. Um dos erros da esquerda no mundo tem sido o culto à personalidade, como se viu na Bolívia, na Venezuela, na Argentina. A alternância de partidos e de nomes é uma necessidade do progresso, com idas e vindas, Lula teve a lucidez e grandeza de não buscar reformar a Constituição para buscar um terceiro mandato para si. Mas fez tudo para impedir a alternância de partido, insistindo com a Dilma. Agora mesmo, ele não consegue pensar a possibilidade de alternância ao Bolsonaro sem o PT. Com a liderança e com os impedimentos que tem, ele poderia ter saído da prisão falando para fora do PT. Reconhecendo os erros, de todos nós, falando para Fernando Henrique, Ciro, Serra, Lupi, Dino, Roberto Freire, e dizendo, “companheiros, onde erramos, eu e todos nós, o que fazer para atravessarmos as próximas décadas, construindo o Brasil que se espera?”. Pena que o Lula só quer falar para o PT e o PT só quer ouvir o Lula. A prisão do Lula agravou a prisão do Brasil ao Lula.  Pena que ele só quer falar para o PT e o PT só quer ouvir a ele. Pena também que não vejo disposição dos outros para ouvirem ao Lula, com o argumento de que ele estava preso. Deixem a prisão para a justiça, e o diálogo para a política. Até porque, se não há qualquer dúvida em relação à corrupção nos governos do PT, no caso específico do Triplex e de Atibaia as provas não são totalmente convincentes, sobretudo depois da transformação do juiz em ministro.

P – O senhor tem uma longa carreira pública, governador do Distrito Federal, duas vezes no Senado. Pretende voltar às eleições neste ano ou em 2022?

C.B. – O que eu falei é um discurso de quem não tem a menor preocupação com ganhar votos. Perderei muitos e não ganharei nem um único voto. Desde quando minha coerência me levou a votar pelo impeachment da Dilma, perdendo eleitores e amigos, comecei a migração para ex-candidato a tudo. Além disto, estou em uma fase muito feliz com o uso do tempo que ainda tenho adiante. Não o troco pela agenda de candidato, ainda mais correndo risco de ganhar e cair na agenda de governador ou senador.


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Autor: Politicando

Um blog com o objetivo de simplificar o funcionamento da política brasileira, colaborando com a democratização do acesso à informação em uma linguagem acessível para todos os públicos.

3 pensamentos

    1. Muito obrigado, Rafael. Ficamos felizes que esteja nos acompanhando. Fique à vontade para fazer sugestões e críticas sempre que julgar necessário. Um grande abraço de toda a nossa equipe! 🙂

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