A polarização é expressão de uma dimensão autoritária da sociedade, diz a socióloga Verônica Pereira

O Governo Bolsonaro completou seu primeiro ano de administração. Entre diversas análises e leituras produzidas para avaliar o atual cenário político, uma delas teve um certo grau de unanimidade entre os especialistas: a polarização entre as opiniões políticas se intensificou. A rivalização de duas frentes, o “progressismo” e o “liberalismo” – reduzidamente “esquerda” e “direita”, respectivamente – vista durante a eleição geral de 2018, ganhou novos desdobramentos com o novo governo, fato reforçado por algumas declarações polêmicas dadas tanto pelo presidente da República como por seus comandados. O efeito mais marcante desse cenário tem se revelado na internet, palco de onde as discussões já acaloradas do cotidiano offline ganham repercussões ainda maiores. 

Para refletir sobre esse momento vivido pela sociedade brasileira, POLITICANDO conversou com a socióloga Verônica Sales Pereira, professora-titular do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Com especialização nas áreas de memória social, sociologia urbana, patrimônio e identidade, ela nos ajuda a refletir um pouco sobre os motivos que levaram a sociedade brasileira à atual situação.

Tapumes dividiram a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para separar defensores e críticos do impeachment da presidente Dilma Rousseff em abril de 2016 (Foto: Agência Brasil)

POLITICANDO – O Instituto Ipsos divulgou que, em termos de radicalização política, o Brasil tem uma média acima da internacional. Se comparado a outras repúblicas, a democracia brasileira também é bastante jovem – Constituição de 1988. Esse processo seria esperado ou esconde outros fatores importantes?

PROFª. VERÔNICA SALES PEREIRA – Acredito que esse processo de polarização ou radicalização é expressão de uma dimensão autoritária da nossa sociedade que é mais antigo. A internet propiciou a sua expressão de uma forma não apenas mais acelerada, mas também, o próprio ambiente virtual, ao prescindir do contato físico do outro (o olhar, os gestos) eliminou certos códigos importantes presentes na sociabilidade presencial, como o respeito, o pudor, que inibem, ou pelo menos dificultam, a expressão pura e simples dos afetos. Isso é um dos fatores, entre outros, que ajudam a entender essa polarização.

POLITICANDO – Há um senso comum predominante na opinião pública de que os brasileiros nunca deram a devida importância para a política. Essa realidade supostamente teria mudado a partir das eleições gerais de 2018. Como você analisa essa impressão?

PROFª. VERÔNICA – Discordo. Sempre houve interesse pela política no país. No entanto, sua manifestação, em geral, esteve relacionada às formas organizadas da sociedade civil, aos partidos, aos meios de comunicação tradicionais bem como nas conversas que as pessoas têm na vida cotidiana, no âmbito das suas relações privadas – na família, no lazer, no trabalho, etc. Esse interesse não se intensifica necessariamente com o advento da internet. Nos períodos de democratização de massa no país – 1945-1964 – e depois, na redemocratização, a política sempre foi objeto de interesse e debate.

POLITICANDO – Alguns cientistas políticos avaliam que existe menos conscientização política no Brasil e mais aspectos de devoção por determinadas personalidades A ou B das campanhas eleitorais. Na mesma linha de raciocínio, pensadores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda já fizeram análises sobre o “paternalismo” e o “patrimonialismo” políticos no Brasil interferindo na opinião pública. Como você avalia isso?

PROFª. VERÔNICA – Eu concordo parcialmente. Acho que o termo “conscientização política” é restrito, pois pressupõe uma certa racionalidade que exclui um universo de valores, visões de mundo, afetos, paixões, que bem ou mal fazem parte das posições político-ideológicas das pessoas e dos grupos. Acredito que essas posições tendem a se transformar seja à esquerda ou à direita, na medida em que elas são colocadas em prática, ou seja, experimentadas, vividas, exercidas. Ou seja, na medida em que as pessoas e grupos têm que aprender a conviver com a alteridade dentro de determinadas regras, ou seja, dentro dos limites institucionais da democracia. Então o que estamos testemunhando e vivendo é um processo difícil, que carrega esse peso do “paternalismo”, do “patrimonialismo”, mas não se restringe a ele, que de certa forma o reproduz, ao mesmo tempo que busca superá-lo, rompê-lo; e que testa a capacidade das nossas instituições em mediar esses dissensos dentro de um horizonte de civilidade e democracia.

POLITICANDO – A divisão entre o “saber político” e a incorporação desse conhecimento parecem servir como um tipo de status para uma hierarquia no Brasil, não?

PROFª. VERÔNICA – O “saber político”, num sentido amplo, pode estar associado a um acúmulo de informações – que vão desde as fake news até aquelas mediadas por um conhecimento do especialista. No sentido de obtenção de informações mediadas pela grande imprensa ou pelo conhecimento especializado sobre os eventos políticos, isso pode sim servir como um repertório ou um capital cultural e político, que não necessariamente leva a um debate mais esclarecedor das idéias, mas como um sinal de distinção social em relação ao oponente, seja um indivíduo ou um grupo social.


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Autor: Kevin Kamada

Estudante de graduação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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