A gente faz a charge em forma de música, conta Tiago de Souza, dos ‘Marcheiros’

Um bate-papo com o autor de marchinhas de temas políticos que conquistou o Brasil


Famílias racharam, amizades de longa data foram interrompidas e, em alguns casos, chegaram até mesmo às vias de fato. Nos últimos anos, o calor do noticiário político esquentou o clima em todo o Brasil. Seja pelo conflito entre convicções próprias ou pelos reflexos que a crise política acarretou a diversos setores do país, é possível dizer que todo brasileiro foi afetado de alguma forma pelo turbilhão da política nacional.

Alguns levaram o noticiário político recente tão a sério que até saíram na pancadaria pelas ruas do Brasil. Mas o trabalho de uma dupla de Campinas (SP) vem dando a tônica divertida para quebrar a tensão dos acontecimentos. Desde dezembro de 2015, o advogado Thiago de Souza e o professor de música Daniel Battistoni são conhecidos como os “Marcheiros“. As melodias em ritmo de marchinhas de carnaval ganharam as ruas e, rapidamente, também espaço em tevês e rádios, além das redes sociais. POLITICANDO bateu um papo com Souza para entender qual é a receita para acalmar os ânimos usando a agitação do ritmo mais brasileiro de todos: o carnaval!

Thiago de Souza, à esquerda, e Daniel Battistoni, à direita, em entrevista à rádio CBN (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/Marcheiros)

POLITICANDO – A primeira marchinha de vocês surgiu numa época em que as opiniões políticas ficaram bastante acirradas. Apesar disso vocês fizeram uma brincadeira super criativa com o “japonês da Federal”. Conta pra gente um pouco da história e a inspiração pra vocês criarem a letra?

THIAGO DE SOUZA – Essa música eu fiz inspirado na situação que a gente tomou contato na época: o japonês seguindo e acordando todos os políticos, empresários, lobistas… Aquelas pessoas poderosas que, em outras épocas, a gente jamais poderia imaginar que fossem se sujeitar à prisão. Eles sempre davam um jeito de sair, pagando advogado… A gente acabou se encantando com essa hipótese, que é muito engraçada: a contradição da prisão de uma pessoa rica é quase que convivida diariamente no nosso cotidiano. A gente só vê gente pobre indo presa. Quando a gente viu gente rica, e o japonês era quem conduzia essas pessoas à prisão, imediatamente me veio uma ideia de criar uma brincadeira em cima disso.

POLITICANDO – Vocês esperavam por essa repercussão? Confesso que conheci o grupo de vocês graças à coluna do José Simão!

SOUZA – A gente nunca esperou essa repercussão porque fizemos essa música exclusivamente para um concurso, e no final ela nem foi classificada. A gente fez a “marchinha do japonês” pra participar do concurso da Fundação Progresso, e no final ela não ficou nem entre as dez. Apesar de eu a ter escrito, ela acabou não ficando nem entre as dez. E a gente jamais poderia imaginar a repercussão que ela teve. Mas eu acho que a época, o momento e, em alguma medida, a proximidade do carnaval foi responsável para isso. O japonês era um personagem que vivia no imaginário de quem gosta de notícia, de quem lê jornal, e sempre imaginava. E aí a gente materializou isso com a música. Inclusive não existia a expressão “japonês da Federal”. Nasceu da marchinha. Ele era chamado de “japonês bonzinho”. Fomos nós quem o batizamos na música.

POLITICANDO – O site de vocês fala sobre a “charge musical”, mas também cita a “marchinha”. Como vocês definem cada um desses termos?

SOUZA – A marchinha nós acabamos a trazendo de volta, ao interesse do grande público durante o ano inteiro. Acabamos transformando a marchinha como um veículo de música que trata de temas políticos. Inevitavelmente nós já fizemos isso com outros temas e outras situações – por exemplo, a marchinha do “Fufuca” [André Fufuca, deputado federal, PP-MA] , que foi um acontecimento muito rápido. A gente fez uma marchinha e ela imediatamente repercutiu muito na imprensa. Tiramos sarro do Temer [Michel Temer, ex-presidente da República] em setembro… Então acabamos fazendo com que a marchinha voltasse a ser uma música não só cantada no carnaval, mas feita em cima de temas políticos ao longo do ano. E a diferença dela para a charge musical, que é uma derivação disso que estamos falando, é que a charge musical é uma paródia feita em cima de uma notícia. Ela é como se fosse uma tirinha que a gente transforma em outro formato. A gente faz a charge em forma de música. Por isso que a gente chama de charge musical. E aí a gente pode encontrar muito – você citou o Simão: a gente faz muita charge musical com o Zé e com o nosso querido e saudoso Boechat – que é na verdade uma sátira, é um pouquinho diferente da marchinha. Embora a marchinha também trate de temas noticiados, a charge musical tem mais essa característica de descrever de forma cômica misturando universos e, às vezes, utilizando-se de paródias uma situação que é noticiada.

POLITICANDO – Estamos na semana do Carnaval, época em que os brasileiros se dividem entre apoiar ou repudiar a festa das ruas. Esse último grupo costuma dizer que a folia banaliza a discussão dos temas importantes, geralmente da política. Como vocês avaliam isso?

SOUZA – Eu acho que essa ideia de banalizar é um pouco de desculpa de quem é zoado. Não acho que banaliza. Acho que a ideia é trazer um outro olhar para um assunto que normalmente é sisudo, mas que no Brasil é muito caricato. Acho que no mundo inteiro a política é caricata porque ela é a arte de justificar contradições, né? A gente fala que não faz e faz. A gente fala que não vai fazer e faz. A gente fala que vai fazer e não faz. Então é a arte da contradição, a arte da explicação da contradição. Então é por isso que política abre tanta margem para olhares cômicos. E o nosso fazer música é simplesmente uma linguagem para isso. Poderia ser, como a gente trata, uma charge ilustrada, um outro tipo de brincadeira… Mas a gente opta por fazer música porque pouca gente faz. Não que não tenha gente que não faça. Mas eu acho que é um pouco isso. E a marchinha é um estilo musical que sempre foi – não vou falar contestador, que talvez não seja a melhor palavra – mas sempre foi um estilo musical que trouxesse esses temas de uma forma bem humorada para um momento em que a gente tem que rir da gente – carnaval é um pouco disso. É rir das nossas mazelas, depurar tudo de ruim que nos acontece com o poder do riso. Sorrir, ser feliz, não resolve o problema, mas todo mundo sabe que o ser humano é sensorial e que precisa se sentir bem. Não adianta estar tudo bem se ele não se sentir bem. E eu acho que a música, a marchinha, o humor político, ele tem muito disso, né? Na Suécia, um dos países em que as coisas mais transcorrem com eficiência e justiça social  e é um dos lugares que mais têm suicídio per capita. Então quer dizer: se as pessoas não se sentirem bem, se elas não se sentirem felizes, não resolve nada as coisas funcionarem bem. No Brasil, como nada funciona bem, a gente tem que se sentir feliz mesmo diante dessa realidade tropical. [risos]

POLITICANDO – Agora uma dúvida que vocês devem ouvir bastante: as marchinhas brincam com vários personagens do noticiário político. Mas vocês, pessoalmente, se identificam com algum dos “lados” da política?

Somos isentões convictos! É interessante porque mesmo que a gente não tivesse uma predileção ideológica ou partidária, nosso grupo jamais teria. A gente nunca deixou isso acontecer. Alguns amigos nossos até eram mais, e eles acabaram saindo não por causa disso, mas a gente já teve um ou outro cara que era um pouco mais e a gente tinha bastante desavença por causa disso. Mas o grupo é isentão e a gente é super isentão! Eu sou de centro mesmo, acho que o caminho está sempre no meio-termo. Eu particularmente tenho ideias liberais, acho que não dá pra fugir muito desse universo não. Eu acho que tem momentos pra ser desenvolvimentista em termos econômicos, mas também agora é o momento do Estado diminuir… Enfim. Então eu ao mesmo tempo sou um cara progressista na minha essência, eu gosto muito de liberdade individual, e eu tenho uma coisa pessoalmente que eu acho que é fundamental, é uma coisa mal discutida no Brasil: a liberdade de expressão. Até essa temática do “politicamente correto” acabou deixando muito segmentado esse assunto, como se “politicamente correto” fosse não fazer piada com grupos de minorias, quando na verdade eu acho que o “politicamente correto” tem um condão mais censurante do que isso. Tanto que a gente já vê muita gente conservadora ditando regra do que pode e do que não pode. Por exemplo, no caso da ministra Damares, “menino veste azul e menina veste rosa”. É lógico que eu entendo que ela falou isso até num tom de brincadeira, mas também não assumir que isso está na alma de algumas mensagens é negar a realidade. Então eu acho que eu sou um liberal progressista. Não tenho partido político. Não temos nenhum tipo de simpatia por partidos políticos, embora entenda a necessidade de sua existência para a relação democrática e representativa – o que eu não questiono, pessoalmente. Acho que se tivesse que nos definir hoje, nós somos isentões. Tiramos muito sarro do PT, do Temer, e estamos tirando muito sarro do Bolsonaro, porque a política nacional é muito caricata. E esse governo, em especial, é muito exótico. Ele é bem fácil de tirar sarro porque ele é extremamente exótico e contraditório.

Embora a marchinha também trate de temas noticiados, a charge musical tem mais essa característica de descrever de forma cômica misturando universos e, às vezes, utilizando-se de paródias uma situação que é noticiada.

POLITICANDO – Conte-nos um pouco da história de vocês, um advogado e um professor de música, certo? Como é a rotina de trabalho do grupo? Hoje vocês dividem o tempo de trabalho ou se dedicam exclusivamente?

SOUZA – Eu sou advogado e o Dani [Daniel Battistoni] é professor de música. Eu tenho também muitos trabalhos musicais, porque eu sou do carnaval. Já fui diretor musical da Dragões da Real até 2018, sou da ala de compositores da Mangueira, tenho um outro trabalho chamado “Por Música” que é uma dinâmica corporativa ligada à composição musical. Então eu tenho muita coisa de música embora profissionalmente meu ganha-pão seja com advocacia. O Dani, idem. Ele é professor de música, toca também em eventos, mas o cotidiano dele é acadêmico, dando aulas. O nosso método de composição é muito simples e rápido. O que a gente costuma fazer é ler uma notícia, e ela serve como uma sinopse para mim. A partir dela crio uma música, o Dani pega e grava imediatamente no celular. A maioria das músicas, como elas seguem a notícia, não tem interesse nenhum a gente gravar elas bem produzidas e ir pro estúdio… Circunstancialmente, quando a gente está gravando algum trabalho, a gente até grava em estúdio. Mas o que mais interessa a gente é a velocidade em compor e a disponibilização ao público e a vocês, jornalistas, que são nossos grandes vetores de disseminação. O grande lance da charge musical é ela entregar na cauda da notícia – depois de ela ser informada, de as opiniões saírem, de tudo o que for relevante ser tratado – a gente soltar uma brincadeira para matar aquele assunto de uma forma bem humorada. A nossa ideia é exatamente essa. A cada notícia que tem essa possibilidade cômica, a gente solta uma brincadeira para fechar o assunto. É mais ou menos esse o nosso objetivo.

POLITICANDO – Qual é o grande desafio ou aquilo que vocês mais se preocupam na hora de criar uma marchinha?

SOUZA – Eu acho que o maior desafio é ela ser legal, ser divertida. A gente usa como base sempre ou universos muito abstratos, ou quando a gente vai falar de alguém especificamente ou um fato que envolva a alguém a gente costuma usar até como proteção para não tomar nenhum processo a notícia. A gente usa como referência a notícia e acho que a gente acaba se protegendo de eventuais cobranças. Essa é a referência. A notícia acaba respaldando a gente de eventuais crimes de calúnia, essa coisa toda, difamação. A gente acaba restringindo nosso universo ao que foi noticiado.

POLITICANDO – Os “Marcheiros” já produzem mais coisas além das marchinhas. O que vocês destacariam entre os produtos do grupo?

SOUZA – A gente tem uma produtorinha que se chama “Reagência”, que é um criativo musical. A gente faz muito jingle, ações para a TV. E a minha menina dos olhos é essa dinâmica musical que comentei, que é chamada “Por Música”. É uma experiência musical que a gente faz com grupos corporativos, atléticos estudantis, que é o de criar uma música totalmente inédita a partir de um tema que o grupo escolhe e que junto ele roteiriza. Então essa é a nossa menina dos olhos.

POLITICANDO – Quais os próximos passos dos “Marcheiros”? Dá pra antecipar alguma novidade por aí?

SOUZA – Então, agora a gente está num período em que vamos reorganizar as coisas. Nós quase fomos para uma rádio no ano passado com um programa diário e acabou que, infelizmente, não rolou um patrocínio. O ano passado foi conturbado, eleições, e o nosso conteúdo é extremamente agudo para esse tema. Então eu acho que tivemos um pouquinho mais de dificuldades. A gente já fez alguns formatos para a TV Veja [Revista Veja], um piloto de um programa, uma retrospectiva, e fez um bloco da corrida eleitoral, mas aí a Veja acabou tendo esse problema financeiro e o nosso foi um dos projetos que caiu. Mas era um projeto interessante da Veja. A gente também já fez a Lucimara Parisi, a parte musical do programa dela. E quase tivemos um quadro numa emissora de rádio ano passado, o que não tá descartado ainda. Não podemos falar muito mais porque ainda está em fase de acertos contratuais e do próprio piloto.


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Confira outras entrevistas do POLITICANDO:

Autor: Kevin Kamada

Estudante de graduação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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