Gratidão, Boechat!


Todo jornalista tem uma história para contar sobre como optou por sua carreira. Muitas vezes, o episódio dessa escolha perpassa pela admiração a um profissional. Hoje, sou tomado por uma tristeza sem tamanho ao trazer para este espaço a notícia do falecimento de um dos responsáveis pela minha escolha por esse campo de atuação. Ricardo Boechat, 66, é uma das vítimas fatais da queda de um helicóptero na Rodovia Anhanguera, próximo à capital paulista, no início da tarde desta segunda-feira. A aeronave modelo 206B Jetranger de matrícula PT-HPG, fabricada pela Bell Helicopter, era pilotada por Ronaldo Quattrucci, que também faleceu.

Há cerca de dez anos, zapeando pelo dial do rádio, duas gargalhadas indescritíveis me fizeram parar numa das frequências. As vozes me eram familiares. Eles faziam chacota dos candidatos mais engraçados das eleições gerais de 2010. Imbatíveis! Ricardo Boechat e José Simão passam uma leitura bem humorada dos destaques do dia na coluna “Buemba!”, que passei a acompanhar de forma de forma ininterrupta a partir daquele dia. Mas Boechat já não me era desconhecido. Eu já tinha uma admiração por sua simplicidade, estampada nas páginas de inúmeras revistas que traziam o “inusitado” caso de um jornalista consagrado andar para cima e para baixo nas ruas de São Paulo com um Renault Twingo, diga-se de passagem já bastante avariado. O “carrinho” – como ele apelidava o veículo – era unha e carne com o jornalista. Símbolo de sua simplicidade e desapego. Lição de vida. Como profissional que nos orgulha, suas preocupações sempre estiveram voltadas a coisas mais importantes: a fazer com excelência sua profissão. O título de Mestre do Jornalismo não lhe veio por acaso. O jornalista é vencedor de 17 edições do Prêmio Comunique-se e outros três prêmios Esso, fruto de uma indescritível dedicação às reportagens investigativas que revelaram escândalos de corrupção. Mais tarde, abrilhantada pelo convite para apresentar programas no rádio e na TV.

Durante esses anos, minha admiração a Boechat sempre se estendeu “de sete às sete”. Sua rotina surpreendente, guiada pelo amor à profissão começava logo cedo, quando ele apresentava a edição da manhã do Jornal BandNews FM. À noite, ancorava o Jornal da Band. Tanto em um como no outro, dono de uma característica rara nos microfones: o zelo na recolhimento de informações, na forma de explicá-las, e na maestria com que conduzia seus criteriosos comentários que o consolidaram como um dos profissionais mais queridos da imprensa e dos ouvintes brasileiros. Crítica aguçada, apartidária. Uma lição de desprendimento e dedicação que pode ter lhe custado caro com o episódio depressivo agudo que o acometeu em 2015. Mas quem disse que isso o derrubou? Um talento inabalável, marcado pela flexibilidade com que dominava a arte de fazer o “ao vivo”. Foram milhares de dias no ar, construindo comentários e análises que elucidaram o dia a dia do noticiário.

Mas meu maior sinal de agradecimento por esse profissional se deve à propriedade com que matava no peito as pautas da política. Um misto de didática e de isenção, por quem aprendi a seguir, a respeitar e a me inspirar. Não hesito em dizer, foi o criador de um padrão de bom jornalismo com cobrança e autoridade de opinião, com sinceridade, elegância e equilíbrio. Durante todos esses anos, ensinou a milhares de jornalistas como fazer um bom jornalismo político. Aqui faço um relato muito pessoal, pois influenciou-me no aprender a gostar dessa área e, como citei no começo, a me ajudar a seguir pela carreira jornalística.

Uma perda inestimável para milhões de ouvintes e espectadores que se tornaram seus amigos a distância graças às ondas da radiodifusão. O Brasil fica carente do seu talento, mas igualmente abraçado por toda a grandeza com que fomos presenteados pelo jornalismo de qualidade ao longo de todos esses anos, e pelo qual temos o dever de zelar.

Gratidão, Boechat!


Autor: Kevin Kamada

Estudante de graduação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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