“A Onda” completa dez anos dialogando com a realidade

por Egberto Nunes, estudante de Jornalismo e colaborador do blog POLITICANDO


Os termos “extrema-direita” e “fascismo” nunca foram tão discutidos e pesquisados como nos últimos anos. Não só no Brasil, como no mundo todo é fácil achar notícias ou artigos recentes ao pesquisar esses conceitos na internet. O caso de Charlotesville (EUA) em 2017, a ascensão de governos intolerantes pela Europa, as manifestações de extrema direita e o apoio obsessivo a líderes radicais pelo Brasil e pelo mundo são exemplos disso. Mais recentemente, a Alemanha foi palco de um triste ato: os protestos da extrema-direita e a “caça aos imigrantes”.

XENOFOBIA REUTERS.png
Em 27 de agosto, manifestações xenófobicas de extrema-direita tomaram palco em Chemitz, na Alemanha. (Foto: Reprodução/Reuters)

O acontecimento se deu depois da morte de um alemão por esfaqueamento e a detenção de dois suspeitos: um iraquiano e um sírio. No final de agosto, grupos ligados à extrema-direita lançaram uma “caça aos estrangeiros” e fizeram saudações nazi (proibidas no país) no local do crime em Chemnitz, na Saxônia, no leste da Alemanha. Várias fake news surgiram para aumentar o fato e denunciar os imigrantes.

Também foi na Alemanha, o palco para a produção de um dos filmes mais didáticos e frequentemente usados em salas de aula sobre a ideologia fascista (e os perigos da mesma). Falo de A Onda (Die Welle, 2008 – distribuição: Constantin Film/Highlight Film), longa-metragem baseado em fatos reais sobre um experimento realizado por Ron Jones, um professor da Califórnia (EUA), no ano de 1967, em Palo Alto, para estudantes do ensino médio, no intuito de ensinar sobre os eventos que levaram ao Holocausto. O novo método de ensino, nada mais era do que demonstrar como uma população poderia ser tomada pelos ideais do fascismo. A produção tem o seu décimo aniversário esse ano em meio ao acalorado debate sobre o radicalismo político pelo mundo.

A ONDA REPRODUCAO
Símbolos de cumprimento e uniformes iguais para criar uma ideia de pertencimento ao grupo fazem parte do experimento do filme (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Por mais que ele tenha uma premissa até então pesada, o filme começa bem animado, com o professor Rainer Wenger no seu carro cantando bem alto a música “Rock ‘n’ Roll High School”, da banda de rock britânica Ramones. Até então, ele pretendia ensinar sobre anarquismo, mas tem a disciplina tomada por um professor bem mais fechado. No lugar, ele terá que ministrar o curso sobre autocracia, conceito que coloca todo poder centrado em um único líder. Ao testar o conhecimento dos alunos sobre o conceito e em uma dada discussão, ver que eles não enxergam a possibilidade de um “quarto Reich” surgir, ele muda a predisposição das cadeiras, separando grupinhos, institui regras para falar e se dirigir ao líder da classe, como escolhido pela turma, o professor.

Não darei muitos spoilers dos acontecimentos, mas vocês devem imaginar que o experimento sai do controle e em algum momento os alunos começam a levar a lição a sério demais, para fora das aulas. A relação entre os discursos reproduzidos, as relações que cada um tem com o experimento e a forma como enxergam aquilo para as suas vidas acaba sendo o mais interessante da produção.

CENA A ONDA
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Nos tempos nebulosos em que vivemos, é difícil não fazer uma comparação com a realidade ao assistir A Onda. Principalmente no quesito dos personagens. Temos aquela que reluta desde o começo e acha todo um processo um absurdo. Outro a princípio discorda, mas logo depois encarna cegamente o movimento. E, principalmente, aquele que leva o projeto para a sua vida. Dessa forma, conseguimos relacionar facilmente com estereótipos da vida real, que diferente do movimento por si só, estão bem vivos dos nossos lados.

Seria ainda mais interessante acompanhar o filme da perspectiva de um jovem alemão, sabendo do que aconteceu no passado e vendo seu país como está. São feitas menções a Adolf Hitler no filme, lembrando do passado, mas com um desgosto do tipo “isso não vai acontecer de novo” ou “de novo, isso?” Outro longa que explora muito bem essa questão é “Ele está de volta” (Er ist wieder da, 2015) que ficcionaliza a volta do ditador alemão em 2015.

Vale lembrar que em pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em outubro de 2017, foi constatado que o brasileiro tem forte adesão ao autoritarismo. Foram feitas perguntas que envolviam o conservadorismo, a agressividade autoritária e a submissão à autoridade. No geral, em uma escala de 0 a 10, atingimos o nível de 8,1 em apoio ao autoritarismo.

FOLHAPRESS
Em um dos principais conflitos do filme, o movimento sai da sala e toma as ruas (Foto: Reprodução/Constantin Film e Highlight Film)

Além do longa alemão, um homônimo americano foi realizado anteriormente, em 1981, importante destacar que para ser exibido na televisão. Um documentário chamado “Lesson Plan: The Story of the Third Wave”, contando a história do projeto também foi produzido. Não garanto muito sobre o último, mas as ficções mencionadas podem ser facilmente encontradas pela internet ou em lojas de DVDs. A Onda cabe sempre ser revisto, independente da efeméride, para que suas reflexões sejam contínuas e melhoradas.


Saiba mais:

Autor: Politicando

Um blog com o objetivo de simplificar o funcionamento da política brasileira, colaborando com a democratização do acesso à informação em uma linguagem acessível para todos os públicos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.